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Qual é a pergunta central do capítulo de “O conceito de História” de Arendt?
Como surgiu o conceito moderno de História e o que ele modifica na maneira como os seres humanos compreendem o tempo, a política e suas próprias ações.
Qual problema Arendt identifica na modernidade?
A História deixa de ser apenas um registro das ações humanas e passa a ser concebida como um processo dotado de movimento próprio, capaz de subordinar os indivíduos.
Por que Arendt retorna aos gregos?
Para mostrar que a concepção clássica de História era diferente da moderna: valorizava a permanência das ações humanas memoráveis, não um processo histórico contínuo.
Qual relação existe entre História e política?
A História nasce da necessidade de preservar e dar sentido às ações realizadas no espaço público.
O que significa "imortalidade" para os gregos?
Não é viver para sempre biologicamente, mas permanecer na memória coletiva por meio de ações extraordinárias.
Por que a ação ocupa lugar central em Arendt?
Porque é por meio da ação que os seres humanos inauguram algo novo no mundo.
Qual diferença entre natureza e História?
A natureza é marcada pela repetição cíclica; a História, pela singularidade das ações humanas.
Como a modernidade altera essa distinção?
Passa a enxergar a História como um processo contínuo, quase natural, governado por leis de desenvolvimento.
Quem deixa de ser protagonista na visão moderna criticada por Arendt?
Os indivíduos concretos, substituídos por abstrações como "Humanidade", "História" ou "Progresso".
Qual risco existe quando a História é tratada como processo?
As ações individuais podem parecer irrelevantes diante de uma suposta lógica inevitável da História.
O que é um acontecimento?
Como conhecemos o passado?
O que faz uma narrativa ser verdadeira?
O que pode ser lembrado?
Qual é a tarefa do historiador?
Qual problema que X apresentou?
Qual foi a ideia que mais mudou a sua maneira de pensar?
Que dúvida você levaria para uma discussão em sala?
Arendt: a concepção moderna da História (Antiguidade x Modernidade)
ponto central da Arendt não é que tudo ficou passageiro.
Ela está dizendo algo mais específico.
Na Antiguidade:
a natureza era permanente;
os indivíduos eram mortais;
a História existia para preservar feitos extraordinários.
Ou seja:
A História era memória das ações humanas.
Na modernidade acontece uma inversão.
A História deixa de ser o lugar onde se registram ações.
Ela própria passa a ser entendida como uma força que se movimenta.
Ela vira um sujeito.
É como se deixasse de ser um livro e passasse a ser um rio.
Ou um motor.
É isso que ela está criticando.
Então eu acrescentaria à sua resposta:
"A História deixa de narrar ações para ser concebida como um processo autônomo."
Ação e política
A política existe porque existem seres capazes de começar algo novo.
Não administrar.
Não fabricar.
Começar.
A ação:
acontece entre pessoas;
é imprevisível;
inaugura novidades;
cria História.
A política é o espaço onde isso acontece.
É por isso que Arendt ama tanto a polis grega.
Porque ali as pessoas apareciam umas para as outras através da ação.
Então eu resumiria:
Sem ação não existe política. Existe administração.
Essa frase vale ouro.
Por que Arendt volta aos gregos?
Ela não volta porque acha os gregos melhores.
Ela volta porque eles ainda conheciam uma distinção que a modernidade perdeu.
Eles sabiam separar:
natureza
fabricação
ação
Além disso:
para os gregos,
a História existia para impedir que as grandes ações desaparecessem.
Ela era quase uma luta contra o esquecimento.
É lindo.
Progresso em Arendt
Esse conceito é mais sutil.
Ela não está simplesmente dizendo:
"progresso é ruim."
Ela está dizendo:
Quando acreditamos que existe um progresso inevitável...
...paramos de olhar para a singularidade das ações humanas.
Tudo vira etapa.
Tudo vira meio.
Tudo vira engrenagem.
Isso destrói justamente aquilo que faz da História uma História.
Porque o acontecimento deixa de ser acontecimento.
Vira apenas um elo da corrente.
"A historiografia é uma relação."
Eu acho que essa frase pode virar uma frase muito forte.
Mas eu te perguntaria:
Relação entre quem?
Você começou a responder.
Pesquisador.
Testemunha.
Narrador.
Leitor.
Comunidade.
Muito bom.
Agora falta um elemento.
O acontecimento.
Porque eu acho que Han Kang está o tempo inteiro perguntando:
Como um acontecimento continua produzindo relações décadas depois?
Não apenas como ele é contado.
Han Kang e uma nova ética da memória
"Ela não mostra uma versão mais atualizada do acontecimento passado, mas uma atualização da relação com esse acontecimento."
Problema
Como narrar uma violência histórica sem transformar o sofrimento do outro em objeto de consumo ou extração?
Como alguém pode escrever sobre um acontecimento traumático que continua produzindo efeitos muito depois de terminado?
Tese (hipótese)
Han Kang sugere que o trabalho sobre o passado não consiste apenas em recuperar fatos, mas em assumir uma relação ética com quem viveu o acontecimento e com quem continua vivendo suas consequências.
Como o argumento se move
1. O testemunho
O sobrevivente não apenas relata.
Ele questiona o próprio ato de relatar.
Ele pergunta:
Quem ganha com essa narrativa?
2. O pesquisador
A pesquisa nunca aparece como neutra.
Pesquisar modifica relações.
Perguntar também é agir.
3. O corpo
O corpo é um arquivo.
A tortura não destrói apenas tecidos.
Ela reorganiza:
linguagem;
memória;
vergonha;
consciência.
4. O trauma > Muda a temporalidade do acontecimento > O tempo permanece ativo porque continua organizando o presente em significados cristalizados
O acontecimento não termina.
Ele continua irradiando efeitos.
Não apenas nas vítimas.
Mas nas famílias.
Na cidade.
Na autora.
Nos leitores.
5. A escrita > Maneira de se relacionar com o passado
Escrever não reconstitui o passado.
Escrever estabelece uma nova relação com ele.
Esse ponto eu acho que vai conversar muito com Ricoeur.
Conceitos centrais
testemunho
memória
corpo
trauma
violência
ética
silêncio
narrativa
responsabilidade
relação
Tensões
documento × testemunho
pesquisa × extração
memória individual × memória coletiva
corpo × linguagem
acontecimento × permanência
Ponto de vista, perspectiva e temporalidade - Koselleck
Contribuição à apreensão historiográfica da História
I. A propósito das metáforas pré-modernas da imparcialidade
II. O compromisso com uma posição como pressuposto do conhecimento histórico
III. Temporalização da perspectiva histórica
IV. A obrigação de tomar partido e sua elaboração historiográfica
V. Prospectiva teórica
Futuro passado (1979) - Koselleck
Reinhart Koselleck foi um historiador alemão do pós-guerra, destacando-se como um dos fundadores e o principal teórico da história dos conceitos.
Ciência histórica se encontra sob duas demandas mutuamente excludentes: fazer afirmações verdadeiras e, apesar disso, admitir e considerar a relatividade delas.
Problema posto: Parcialidade e objetividade excluem-se mutuamente mas remetem uma a outra ao longo do desenvolvimento da tarefa histórica
Método de Koselleck
Demonstrar por meio de uma passagem histórica que o nascimento do relativismo histórico coincide perfeitamente com a descoberta do mundo histórico
Por meio disso, vai tentar extrair uma consequência teórica que torne o dilema ao menos mais palatável
I. A propósito das metáforas pré-modernas da imparcialidade
Realismo ingênuo para Koselleck
História que acredita poder fazer com que a verdade das histórias se manifeste intacta
Metáfora do espelho (posição desde de Luciano, manifestada também por Voss e reforçada pelos iluministas como proveito moral
Alegoria da “verdade nua e crua” > Impulso de permitir que a história “fale por si mesma”
Luciano: historiador “apolis”, sem pátria
Postulado científico da verdade como apartidarismo, neutralidade ou abstenção mantém-se intactos até o século XVIII
Muitas citações a Leopold Von Hanke, considerado pai da História Científica, um dos grandes historiadores alemães do século XIX > Princípios de rigor documental (fontes primárias), imparcialidade mostrar os eventos como realmente aconteceram (wie es eigentlich gewesen ist) e foco voltado a Política Internacional de grandes Estados
Aspirar a imparcialidade para conceder palavra ao lado contrário e relacionar reciprocamente todas as forças e partidos integrantes de um processo histórico de modo que o processo inteiro possa ser compreendido através de um só olhar é legítimo, mas não é o que o que construiu o mundo histórico > História moderna surgiu a partir do movimento reflexivo da História sobre seus pressupostos de ação e do conhecimento > Novo conceito de História (“Geschiche”) > A partir dos iluministas, História tornou-se um conceito reflexivo (“Auflarer”), uma História em si, sem objeto de conhecimento > História nua e crua privilegia a testemunha ocular e depois a testemunha auditiva
II. O compromisso com uma posição como pressuposto do conhecimento histórico
Doutrina da perspectiva existe desde Renascimento
Comenius (1623) compara um historiador com uma pessoa que carrega um telescópio, colocado sobre os ombros como uma trombeta que aponta para trás > Buscando adquirir conhecimentos para o passado e para o futuro
Chladenius e a perspectiva
Parte do pressuposto de que história e sua representação sejam coincidentes, mas se faz necessário uma separação metodológica para que se pudesse interpretá-la e julgá-la > História é uma unidade em si mesma, mas sua representação é distinta e diversificada
A “imagem original da história” transforma-se em narrativa durante o próprio depoimento
Determinação do ponto de vista não atinge apenas a testemunha, mas o historiador
Uma história já ocorrida permanece irrevogavelmente igual a si mesma, mas as perspectivas do historiador fragmentam-se como um caleidoscópio, conforme seu ponto de partida > O bom historiador que deseja relatar “uma história que faça sentido”, só pode reproduzir essa “imagem original” por meio de “imagens originais” > Usa imagens novas, cria novas ambiguidades incontornáveis, que, por sua vez, fazem supor a necessidade de interpretação
Johann Martin Chladni (1710-1759) foi um filósofo, teólogo e historiador alemão, apontado como um dos fundadores da Hermenêutica. É o autor da importante obra Princípios Gerais da Ciência Histórica, publicada originalmente em 1752 > A expressão latina quot capita, tot sensus significa literalmente "quantas cabeças, tantas sentenças" ou "cada cabeça, sua sentença"
“Uma narração imparcial não pode significar o mesmo que uma narração que não tenha ponto de vista, pois isso é impossível; por sua vez, narrar algo de forma parcial não pode significar o mesmo que narrar segundo seu próprio (do narrador) ponto de vista, pois, nesse caso, todas as narrativas seriam igualmente parciais.”
Narração imparcial não é igual a narração sem ponto de vista
Ponto de vista parcial não significa ponto de vista próprio > Senão todas seriam parciais
↓
Não foi superado porque entende que as fontes têm uma resistência intrínseca e um peso próprio que não podem ser manipuladas pela vontade da historiadora x ao mesmo tempo, podem ser interpretadas de formas diferentes e portanto gerar resultados diferentes a partir da abordagem
↓
Libertação> a perspectiva do historiador ganha espaço teórico com o alargamento da perspectiva testemunhal
↓
Ele pode se dar ao luxo de produzir História
↓
Klopstock: poli-história e politeoria
↓
Pode criara pressupostos sobre as fontes além das fontes em si> O historiador pôde tornar-se filósofo da História
Virar a história de todos os ângulos e achar uma unidade coesa e conduzir os eventos mais importantes a sua causa inicial comum
Chladenius deslocou o problema
Qual a verdade > quais condições de conhecimento dessa verdade
III. Temporalização da perspectiva histórica
Chladenius: primado do aspecto pela testemunha ocular como garantia de representação de um acontecimento > capacidade testemunhal aumenta com a proximidade do sujeito ao evento
Fusão dos três tempos históricos em uma fusão antropológica, mantendo sua localização determinada
A relatividade geográfica acrescentou a relatividade temporal > Mudança qualitativa na história não prevista por Chladenius
Mudança 1: Busch (1775): “ Neste momento, acontecimentos que só agora se tornaram perceptíveis conferem importância a uma história que antes teria nos interessado muito pouco, ou que absolutamente não nos teria interessado”
Mudança 2: know-how alterou as condições de conhecimento, outra concepção metodológica
Planck: atingir o conhecimento histórico aumentava e não diminuia com a distância temporal do evento > Perda do privilégio da testemunha ocular, da tradição escrita e oral, História passa a ser um procedimento crítico
O próprio passado passa a ser configurado de um jeito diferente que revela a estreiteza da visão dos contemporâneos
O presente do passado não é mais o tema da História (Historie) que perpetua e transmite as histórias > O próprio passado é a problematização
Impacto da Revolução Francesa
Passado que precisa ser esclarecido e recuperado pela pesquisa histórica
Mas a história eo ipso ainda tinha algum traço restaurativo ou nostálgico (quanto mais o tempo avança, se torna compreensível o passado)
Passou a ser obrigatório tomar partido
O hoje como fundamentalmente diferente do ontem
Johann Albrecht Bengel, também conhecido como Bengelius, era um clérigo pietista luterano e estudioso da língua grega conhecido por sua edição do Novo Testamento grego e seus comentários sobre ele.
Colocou todas as interpretações do Apocalipse em uma análise contínua e não como eventos isolados
Modelo progressista da história: cada interpretação não como uma sequência de equívocos, mas como um processo de sucessivas progressões
“Acontecimento e interpretação convergiam progressivamente, isto é, através de um medium constiuído pelo tempo genuinamente histórico. O modo de interpretação da história permanecia o mesmo. Mudara o seu conteúdo.”
O teórico da história Reinhart Koselleck recupera o teólogo iluminista alemão Johann Salomo Semler (1725–1791) para ilustrar a gênese do relativismo e da historicização do conhecimento histórico no século XVIII
Se amplia para uma historiografia racional
A história também é a história da própria história como disciplina
“A teoria da mudança de perspectiva temporal foi assim diluída em uma teologia progressiva, que atribui sentido a mudança.”
Consequência teórica: todas as histórias são, em maior ou menor medida, parciais (se vão sempre se aprofundando) > Com se livra da crítica de que sua história seria partidarista? Se colocando em uma moral crescente
Não se pode mais separar a verdade e a perspectiva temporal > A verdade historicamente relativa se tornou uma verdade superior > Pressuposto desta superioridade era a alteridade advinda da visão perspectiva (e, portanto, factual) do passado
Goethe: “em nossos dias já não se duvida de que a história tem que ser, de tempos em tempos, reescrita”