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Conjunto de flashcards de vocabulário e conceitos teóricos baseados no artigo acadêmico 'A "neurose" de Freud' (2024), de autoria de Pedro Fernandez de Souza.
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Etimologia de "neurose"
Formação a partir do vocábulo grego clássico νεῦρον (nervo, músculo; associado a νευρά, corda de arco) combinado ao sufixo morfológico -ose (designativo de estado mórbido ou doença), resultando na acepção médica de "doença dos nervos".
William Cullen
Médico e químico escocês do século XVIII apontado como o inventor do termo "neurose", publicado pela primeira vez no segundo volume de sua obra First Lines of the Practice of Physic.
Definição de neurose por William Cullen
Fórmula médica expressa como "sensus et motus laesi, sine pyrexia idiopathica, et sine morbo locali" (lesões do sentido e da motilidade, sem febre idiopática e sem afecção local nos órgãos), cobrindo afecções gerais do sistema nervoso.
Ernst von Feuchtersleben
Médico vienense que, em preleções psiquiátricas de 1845, estabeleceu a distinção original entre "psicose" e "neurose", sentido este que viria a ser invertido por sucessores (tornando a psicose a afecção maior e a neurose um distúrbio menor).
Samuel Alexander Kinner Wilson
Neurologista londrino que, em sua obra Neurologia (1940), registrou que a acepção neurológica empregava "neurose" para designar uma desordem funcional nervosa sem lesão ou base anatômica subjacente identificável.
Neurose no DSM-II (1968)
Edição do manual psiquiátrico oficial na qual a nosologia das afecções nervosas mantinha uma orientação marcadamente freudiana, incorporando classes como neuroses fóbicas, histéricas, de ansiedade, depressivas e obsessivo-compulsivas.
Neurose no DSM-III (1980)
Marco histórico da psiquiatria em que o conceito unificado de neurose foi marginalizado e fragmentado em classes separadas (transtornos afetivos, de ansiedade, dissociativos e somatoformes), subordinando-se à designação "disorder" (transtorno).
Conceito de "nome" como etiqueta (Freud, 1917a)
Princípio enunciado em Caminhos da terapia psicanalítica defendendo que um nome é apenas um rótulo conveniente para estabelecer diferenciações lexicais, não comportando em si nenhum programa teórico ou definição substancial intrínseca.
Neuroses de defesa (Abwehrneurosen / Abwehr-Neuropsychosen)
Afecções psíquicas descritas por Freud em 1894 e 1896 (como histeria e neurose obsessiva) cujos sintomas resultam da ação mediada de defesas psíquicas contra traços de memória relativos a experiências sexuais da infância.
Neuroses simples (einfachen Neurosen)
Classificação inicial de 1896 aplicada à neurastenia e à neurose de angústia, caracterizadas por sintomas que constituem efeitos corporais imediatos e diretos de noxas e desequilíbrios sexuais presentes.
Neuroses atuais (Aktualneurosen)
Denominação dada a partir de 1898 às doenças nervosas provocadas por fatores etiológicos da vida sexual contemporânea e imediata do indivíduo, de causação química ou tóxica, cujos sintomas prescindem de sentido psíquico ou simbólico.
Psiconeuroses (Psychoneurosen)
Categoria diagnóstica de afecções psicopatológicas cujos eventos determinantes remontam a épocas infantis recalcadas, cujos sintomas são mediados pelo sistema da memória inconsciente e dotados de significado psíquico decifrável.
Neuroses propriamente ditas (die eigentlichen Neurosen)
Expressão usada por Freud em 1908 para designar as neuroses atuais como as legítimas ou verdadeiras afecções dos nervos, indicando que o prefixo "psico-" das psiconeuroses confere a estas um uso meramente impróprio ou figurado do termo.
"A neurose é o negativo da perversão"
Fórmula basilar enunciada por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria sexual, definindo o sintoma psiconeurótico como a formação de uma satisfação substitutiva inconsciente derivada de pulsões sexuais reprimidas.
Neurose de transferência (Übertragungsneurose, 1924)
Quadro clínico (abrangendo histeria, fobia e neurose obsessiva) configurado metapsicologicamente pela segunda tópica freudiana como o desfecho patogênico de um conflito entre o Eu (Ich) e o Isso (Es).
Neurose narcísica (narzißtische Neurose, 1924)
Estrutura patológica delineada na classificação nosológica de 1924, exemplificada fundamentalmente pela melancolia, caracterizada pelo conflito intrapsíquico travado entre o Eu (Ich) e o Supereu (Über-Ich).
Psicose (conflito tópico de 1924)
Perturbação psíquica definida nos textos de 1924 (Neurose e psicose e A perda da realidade na neurose e na psicose) como decorrente do abalo e conflito estabelecido entre o Eu (Ich) e o mundo externo.
Limite epistemológico e pragmático da psicanálise
Fronteira demarcada pelas neuroses atuais, cujos sintomas decorrentes de alteração ou dano tóxico direto não comportam sentido psíquico, inviabilizando o método de interpretação psicanalítica e remetendo seu estudo ao domínio biológico.
Teufelsneurose ("neurose do diabo")
Neologismo freudiano criado em 1923 no ensaio sobre o caso do pintor Christoph Haitzmann, operando como ponte conceitual entre a fenomenologia religiosa da possessão demoníaca do século XVII e o saber psicopatológico moderno.
Diferença entre neurose e simulação (1923)
Distinção postulada por Freud fundamentada no grau de consciência: a simulação constitui uma fraude deliberada no plano consciente, enquanto a neurose envolve uma farsa inconsciente forjada pelo próprio sujeito à sua revelia.
Tabukrankheit ("doença de tabu")
Termo análogo formulado por Freud em Totem e tabu (1913) para aproximar os rituais e proibições institucionais de povos indígenas da neurose obsessiva (Zwangsneurose), entrelaçando a clínica psicanalítica ao discurso antropológico.