Conceitos Base da Psicopatologia do Desenvolvimento

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1
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Porque são importantes os conceitos de risco, fatores de risco e proteção na Psicopatologia do Desenvolvimento?

Os conceitos de risco, fatores de risco e proteção são relevantes para a compreensão da adaptação e desadaptação humana, sendo que estes permitem compreender características, contextos e eventos que precedem estes resultados desenvolvimentais.

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Como é que o conceito de risco é definido na epidemiologia?

No contexto da epidemiologia, Lilienfeld & Lilienfeld (1980) definem o risco como padrões de ocorrência de doença em populações humanas e fatores que influenciam estes padrões. Esta perspetiva permite estudar a distribuição das doenças e compreender as condições associadas à sua ocorrência.

3
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Que três questões fundamentais foram colocadas por Gruenberg (1981) relativamente à aplicação do conceito epidemiológico de risco às perturbações mentais?

Gruenberg coloca as seguintes questões:

  1. Quem é que adoece, e quem é que não adoece?

  2. Porque é que as pessoas adoecem?

  3. O que é que pode ser feito para prevenir o adoecer?


4
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De acordo com Masten & Garmezy (1985) quais são implicações das questões colocadas por Gruenberg (1981)?

Estas questões orientam o estudo da suscetibilidade às perturbações, dos mecanismos envolvidos no seu desenvolvimento, e das possibilidades de prevenção.

  1. A primeira questão (quem é que adoece, e quem é que não adoece) implica estudar os fatores de risco e os fatores protetores que estão associados a maior ou menor suscetibilidade dos indivíduos a uma determinada perturbação.

  2. A segunda questão (porque é que as pessoas adoecem?) enfatiza a necessidade de compreender os processos ou mecanismos a partir dos quais estes fatores modificam a ocorrência e curso da perturbação.

  3. A terceira questão (o que é que pode ser feito para prevenir?) implica o desenvolvimento de intervenções orientadas para reduzir a incidência das perturbações mentais, devendo estas ser fundamentadas no conhecimento científico sobre os fatores de risco e protetores e os processos envolvidos no desenvolvimento das perturbações


5
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O que são fatores de risco, segundo Masten e Garmezy (1985)?

Masten e Gamezy (1985) definem fatores de risco como sendo características, contextos ou acontecimentos que estão estatisticamente associados com uma maior incidência de resultados desenvolvimentais negativos, como o desenvolvimento de uma perturbação mental.

6
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Que tipos de fatores de risco psicopatológico podem ser identificados pela investigação científica?

  1. Individuais: incluem, por exemplo, fatores genéticos e temperamentais;

  2. Ambientais: incluem, por exemplo, acontecimentos de vida stressantes e características familiares ou culturais.


7
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A presença de fatores de risco garante que o indivíduo desenvolverá um resultado desenvolvimental negativo?

Não. A presença de um ou mais fatores de risco não garante, de forma causal, o aparecimento de um resultado desenvolvimental negativo, uma vez que estes fatores funcionam numa lógica probabilística.

8
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Porque é que os modelos causais raramente se aplicam às perturbações ou doenças mentais?

Porque o desenvolvimento das perturbações mentais não costuma poder ser explicado por uma relação causal simples entre um único fator e um determinado resultado. Tipicamente, será necessário considerar a interação entre o fator de risco, as características do indivíduo ao qual esse fator se aplica e o ambiente em que o indivíduo se encontra.

9
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O que é a vulnerabilidade, segundo Masten e Garmezy (1985)?

Masten e Garmezy (1985) definem a vulnerabilidade como a suscetibilidade ou predisposição de um indivíduo para apresentar resultados desenvolvimentais negativos.

10
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Qual é a diferença entre vulnerabilidade e fator de risco, segundo Masten e Garmezy (1985)?

O fator de risco diz respeito àquilo que aumenta a probabilidade de ocorrer um resultado desenvolvimental negativo. A vulnerabilidade, por sua vez, procura explicar quem reage mais fortemente a esse risco e porque.

11
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Porque é importante estudar a vulnerabilidade na Psicopatologia?

Porque permite compreender por que razão determinados indivíduos apresentam maior predisposição para desenvolver perturbações específicas ou para reagir ao stresse de forma mais intensa. Esta compreensão é particularmente importante para estudar a etiologia de uma perturbação.

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O que são fatores protetores, segundo Masten e Garmezy (1985)?

Masten e Garmezy (1985) definem fatores protetores como sendo características ou contextos associados a uma menor incidência de resultados desenvolvimentais negativos e/ou a uma maior probabilidade de resultados desenvolvimentais positivos.

13
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Que tipos de fatores protetores identifica Rutter (1979) relativamente à psicopatologia infantil?

  1. Variáveis genético-constitucionais, como o temperamento;

  2. Variáveis ambientais, como as características familiares e escolares.


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Como é que Masten et al. (2009) definem a resiliência?

Os autores definem a resiliência como sendo uma adaptação positiva no contexto de adversidade significativa ou risco.

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Porque é que a resiliência é considerada um conceito inferencial, segundo Masten et al. (2009)?

Para se poder considerar que um indivíduo é resiliente, deve existir evidência de que este foi exposto a um risco ou adversidade significativa, que possa ser considerado uma ameaça a resultados desenvolvimentais positivos, e de que, apesar dessa exposição, conseguiu experienciar bem-estar e alcançar uma adaptação positiva.

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É necessário apresentar resultados de excelência para se considerar que uma criança é resiliente?

Não. A resiliência corresponde tanto ao regresso ao funcionamento normativo ou dentro do esperado, como à obtenção de um funcionamento ótimo.

Uma criança pode ser considerada resiliente mesmo não tendo resultados de excelência, mas sendo competentes e bem-ajustadas, não apresentando défices ou dificuldades intensas.

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O que é a competência segundo Masten e Coatsworth (1998)?

Masten e Coatsworth (1998) afirmam que a adaptação positiva passa por competência. Esta é definida como um padrão de adaptação eficaz ao ambiente, observado através de um sucesso razoável no cumprimento das tarefas desenvolvimentais esperadas para uma pessoa de determinada idade e género, tendo em conta a sua cultura, sociedade e período histórico.

Tal como a resiliência, esta não implica exclusivamente o desempenho excecional.

18
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O que são tarefas desenvolvimentais, segundo Masten e Coatsworth (1998)?

As tarefas desenvolvimentais são marcadores da qualidade da adaptação do indivíduo, definidos pelas expectativas de determinada sociedade ou cultura, num contexto histórico específico, relativamente ao comportamento esperado em diferentes períodos e situações do desenvolvimento.


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Porque é que as tarefas desenvolvimentais variam entre culturas?

Sendo estas socialmente definidas, as tarefas desenvolvimentais podem variar entre culturas. Apesar de poderem refletir domínios universais no desenvolvimento, como a vinculação a cuidadores, estas também podem refletir domínios culturais que não são universais, como o desempenho escolar (em países nórdicos, por exemplo, os sistemas de ensino privilegiam o bem-estar da criança sob o seu desempenho).

20
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Como é que Sroufe (1997) conceptualiza o desenvolvimento?

Sroufe (1997) considera que o desenvolvimento é um fenómeno relacional e não individual, no qual o indivíduo e o seu contexto são inseparáveis. O comportamento não deve ser explicado exclusivamente através de diferenças neurofisiológicas endógenas, uma vez que resulta da interação dinâmica entre o indivíduo e o ambiente.

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O que diz Bronfenbrenner (2005) sobre a influência do ambiente no desenvolvimento?

Bronfenbrenner (2005) considera que processos desenvolvimentais são profundamente afetados por eventos e condições ambientais. Esta influência ocorre diretamente através da relação do indivíduo com os seus microssistemas e indiretamente através dos macrossistemas, que afetam os microssistemas e, consequentemente, o próprio indivíduo.

22
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Porque considera Bronfenbrenner (2005) que a teoria bioecológica é incompleta se não considerar o funcionamento individual?

Porque, além dos sistemas ambientais, é necessário considerar o próprio indivíduo nas suas dimensões biológica, psicológica e comportamental. O desenvolvimento não pode ser explicado apenas pela influência dos contextos, devendo integrar também as características e o funcionamento da pessoa.

23
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Como se caracteriza a relação entre o indivíduo e os sistemas ambientais, segundo Bronfenbrenner (2005)?

Esta relação é dinâmica e recíproca. O contexto influencia o desenvolvimento, mas o seu efeito depende das características do indivíduo, que também atua sobre o contexto e modifica o mesmo.

24
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Tendo em conta esta perspetiva, como é que Sroufe (1997) conceptualiza a perturbação comportamental e afetiva?

A perturbação comportamental e afetiva é vista como sendo uma construção desenvolvimental que reflete sucessivas adaptações ao ambiente e que evolui de acordo com o tempo, obedecendo os mesmos princípios que governam o desenvolvimento normal.

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O que diz Sroufe (1997) acerca da agência do indivíduo?

A agência corresponde ao papel ativo que o indivíduo assume progressivamente no seu próprio desenvolvimento. À medida que se desenvolve, passa a interpretar e construir as suas experiências e a responder às mudanças internas e externas, influenciando, assim, o seu percurso desenvolvimental.

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O que são Trajetórias Desenvolvimentais, de acordo com Sroufe (1997)?

São percursos de desenvolvimento que se constroem ao longo do tempo, através de uma sucessão de acontecimentos, experiências e processos de adaptação. A psicopatologia pode ser compreendida como o resultado de processos que conduzem o indivíduo para longe de uma trajetória de funcionamento adaptativo (ou trajetória positiva).

27
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Como se caracteriza uma Trajetória Desenvolvimental Positiva?

Esta será caracterizada por processos de desenvolvimento normativos e padrões de adaptação positiva. Por exemplo, a vinculação segura, capacidade de controlo de impulso, integração com pares, (…).

28
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Como se caracteriza uma Trajetória Desenvolvimental Negativa?

Esta caracteriza-se por um desvio relativamente a uma trajetória desenvolvimental positiva, considerando o que são os padrões de desenvolvimento normativos e de adaptação positiva. Uma trajetória desenvolvimental negativa está associada a uma maior probabilidade do surgimento de problemas no desenvolvimento.

29
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O que dizem Masten e Coatsworth (1998) sobre as trajetórias desenvolvimentais negativas?

Masten e Coatsworth (1998) argumentam que estas são pautadas por uma ausência de competência, existindo um padrão de fracasso sucessivo em tarefas desenvolvimentais.

30
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Distingue entre um resultado desenvolvimental e uma trajetória desenvolvimental.

Um resultado refere-se a um estado atingido num dado momento do desenvolvimento. A trajetória, por sua vez, refere-se a um percurso, implicando um processo que se desenvolve ao longo do tempo.

31
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O que é um resultado desenvolvimental positivo?

Masten (2009) afirma que um resultado desenvolvimental positivo é caracterizado pela presença de padrões de comportamento considerados positivos, como a felicidade, satisfação com a vida, ou conquistas sociais e académicas. Também pode ser definido pela ausência de comportamentos socialmente indesejáveis, como perturbações mentais ou comportamento delinquente.

32
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O que são resultados desenvolvimentais negativos?

Segundo Sroufe (1997), estes são resultados que refletem uma falha na adaptação relativamente aos processos normativos de desenvolvimento e aos padrões de adaptação positiva. Podem ainda corresponder à incapacidade de cumprir determinadas tarefas desenvolvimentais.

33
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Como podem os resultados desenvolvimentais negativos influenciar as trajetórias futuras?

As dificuldades na adaptação observadas nos resultados desenvolvimentais negativos podem contribuir para colocar o indivíduo numa trajetória desenvolvimental negativa.Neste sentido, os resultados desenvolvimentais podem configurar-se como fatores de risco para problemas futuros.

34
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Segundo Sroufe (1997), porque é que o desenvolvimento não é um processo linear?

Sroufe (1997) considera o desenvolvimento não-linear, sendo que se devem considerar processos de descontinuidade ao longo do tempo, seja esta positiva ou negativa. Esta não-linearidade é refletida nos conceitos de equifinalidade e multifinalidade.

35
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O que é a equifinalidade?

Esta descreve o fenómeno em que diferentes trajetórias desenvolvimentais conduzem ao mesmo resultado. Isto é, indivíduos com percursos distintos podem apresentar padrões de adaptação semelhantes.

O mesmo padrão de desadaptação, como por exemplo, o humor depressivo, pode resultar de trajetórias diferentes, sendo uma marcada pela alienação, e a outra por desânimo aprendido.

36
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O que implica a equifinalidade na intervenção psicológica?

Considerando que indivíduos podem apresentar manifestações semelhantes de mal-estar e ter percursos desenvolvimentais totalmente distintos, a intervenção não deverá centrar-se unicamente nos sintomas observados, tendo de ser trabalhadas diferentes narrativas e competências associadas à trajetória de cada indivíduo.

37
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O que é a multifinalidade?

A multifinalidade descreve o fenómeno em que indivíduos que partem de uma mesma trajetória desenvolvimental podem divergir e apresentar diferentes padrões de adaptação. Ou seja, um percurso inicial semelhante não conduz necessariamente ao mesmo resultado em todos os indivíduos.

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Porque é que a multifinalidade ajuda a compreensão do conceito de resiliência?

A multifinalidade desassocia a trajetória desenvolvimental negativa dos resultados desenvolvimentais negativos, demonstrando que indivíduos expostos a adversidade significativa ou inseridos numa trajetória desenvolvimental negativa podem alcançar resultados positivos.

Demonstra que uma trajetória de risco não determina inevitavelmente um resultado negativo, uma vez que diferentes indivíduos podem desenvolver percursos distintos a partir de condições semelhantes.


39
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Tendo em conta os conceitos de equifinalidade e multifinalidade, e a não-linearidade do desenvolvimento, explique a ideia de descontinuidade.

Sroufe (1997) afirma que a equifinalidade, multifinalidade e não-linearidade do desenvolvimento implicam que a mudança de trajetórias é possível, sendo esta chamada de descontinuidade desenvolvimental. Esta corresponde a uma mudança significativa no padrão de funcionamento ao longo do desenvolvimento, podendo ser positiva ou negativa.

Indíviduos numa trajetória desenvolvimental negativa podem passar por um processo de descontinuidade positiva, transitando para uma trajetória desenvolvimental positiva.

O oposto também é verdade, em que indivíduos numa trajetória positiva podem passar por descontinuidade negativa e afastar-se desta.

40
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Explique o conceito de continuidade.

Considerando os processos de descontinuidade, também existem os de continuidade.

A continuidade positiva corresponde à manutenção de competências que favorecem o desenvolvimento, como a capacidade de regular emoções ou de estabelecer relações positivas. A continuidade negativa, por sua vez, envolve a manutenção de padrões que dificultam a adaptação como por exemplo dificuldades persistentes na regulação de comportamento ou nas relações interpessoais.

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Distingue entre a continuidade e descontinuidade desenvolvimental.

A continuidade corresponde à manutenção de determinados padrões de funcionamento ao longo do tempo, sejam eles adaptativos ou negativos. A descontinuidade corresponde a uma mudança significativa desses padrões, podendo ocorrer no sentido positivo ou negativo

42
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Que implicações tem a não-linearidade do desenvolvimento para a compreensão das perturbações psicopatológicas?

A não-linearidade do desenvolvimento implica que uma perturbação psicopatológica não deve ser entendida como uma condição exclusivamente endógena que o indivíduo simplesmente tem ou não tem. Esta deve ser compreendida como um resultado desenvolvimental negativo, associado a uma trajetória negativa, que poderá alterar-se através de um processo de descontinuidade positiva.

43
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O que quer dizer Sroufe (1997) quando diz que a mudança é constrangida por adaptações prévias?

Apesar do que foi referido anteriormente, Sroufe (1997) afirma que a mudança é constrangida por adaptações prévias. Isto significa que quanto mais tempo um indivídui permanece numa determinada trajetória desenvolvimental, positiva ou negativa, mais difícil poderá tornar-se alterar o curso desta.

Este princípio funciona como um contraponto ao que foi dito acerca das mudanças nas trajetórias desenvolvimentais. Por exemplo, um indivíduo que se encontra numa trajetória desenvolvimental negativa, como no caso de uma perturbação depressiva major, poderá ter maior probabilidade de continuar nessa trajetória quanto mais tempo essa se tem vindo a desenvolver. Ou seja, quanto mais tempo permanece-se numa trajetória, maior a probabilidade da continuidade desta, e menor a de descontinuidade desenvolvimental.

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Porque é que a permanência prolongada numa trajetória desenvolvimental negativa pode dificultar a mudança?

Porque as experiências negativas sucessivas podem reforçar os padrões de funcionamento já existentes. Além disso, se o indivíduo se envolver cada vez menos em oportunidades positivas, torna-se menos provável que consiga desenvolver processos de adaptação positiva.

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Como é que Sroufe (1997) relaciona a mudança constrangida pelas adaptações prévias com o conceito de agência do indivíduo?

A mudança ser constrangida por adaptações prévias implica que, apesar de ter um papel ativo na construção do seu desenvolvimento, a agência do indivíduo também tera seus constrangimentos, dificultando a mudança. À medida que se acumulam experiências negativas e o indivíduo se envolve menos em oportunidades que poderiam favorecer uma adaptação positiva, torna-se menos provável que ocorra uma mudança para uma trajetória mais adaptativa.

46
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O que é a homeorrese, segundo Bowlby (1973)?

Bowlby (1973) utiliza o termo homeorrese para descrever a tendência que alguns indivíduos terão para regressar à trajetória desenvolvimental que seguiam antes de uma perturbação.

47
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Quais são as implicações da homeorrese para Bowbly (1973)?

A homeorrese implica que o comportamento de um indivíduo deve ser observado em função da sua história de vida. Isto porque as experiencias e adaptações anteriores continuam a influenciar o desenvolvimento, mesmo quando ocorrem mudanças significativas. Assim, uma mudança no percurso desenvolvimental não significa que as experiencias precoces e adaptações previamente construidas sejam anuladas ou deixem de ter influencia.

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O que é o holismo, segundo Sroufe e Rutter (1984)?

O holismo corresponde à ideia de que o significado de um comportamento só pode ser compreendido quando considerado no seu contexto psicológico total e, neste caso, no seu contexto desenvolvimental.

49
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O que são Pontos de Viragem, ou turning points, segundo Rutter (1992)?

Rutter (1992) considera que um ponto de viragem é um acontecimento que representa uma mudança significativa relativamente àquilo que o indivíduo vinha a experienciar e que tem potencial para alterar a direção da sua trajetória desenvolvimental.

Ao longo da vida, as transições biológicas, psicológicas e sociocontextuais, e mudanças no equilibrio entre fatores de risco e protetores, criam oportunidades para a reorganização do desenvolvimento.

50
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Dê um exemplo de um ponto de viragem que leva à descontinuidade negativa.

Um ponto de viragem pode ser exemplificado no caso de uma adolescente que tem elevado rendimento escolar ver-se forçada a abandonar a escola porque teve uma gravidez não-planeada, representando um acontecimento incongruente com a trajetória positiva que vinha a apresentar. Este acontecimento pode desencadear uma descontinuidade negativa, reduzindo oportunidades educativas futuras.

No entanto, o mesmo fenómeno do abandono escolar, para uma criança que tem vindo a demonstrar baixo rendimento e absentismo, não se constitui como um ponto de viragem, sendo um resultado consistente com a sua trajetória.

51
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Os pontos de viragem tem como único resultado a descontinuidade negativa?

Não, os pontos de viragem poderão também desencadear descontinuidade positiva, permitindo que o indivíduo abandone uma trajetória desenvolvimental negativa e passe a seguir uma positiva.

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Dê um exemplo de um ponto de viragem que leva à descontinuidade positiva.

Uma criança que sofre maus-tratos por parte da família é sinalizada pela CPCJ, e, por conseguinte, institucionalizada e posteriormente colocada ao cuidado de uma família que lhe proporciona cuidados afetuosos, sensíveis e seguros. Isto constitui um ponto de viragem que leva a descontinuidade positiva, podendo, consequentemente, permitir uma reorganização do seu desenvolvimento e o início de uma trajetória mais positiva, incongruente com aquela que vinha a seguir

53
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Os pontos de viragem podem ter uma origem biológica?

Sim. Devem ser considerados pontos de viragem de origem biológica, como por exemplo, a ativação de um gene previamente dormente na idade adulta, que desencadeie um primeiro surto psicótico, e, eventualmente, um diagnóstico de esquizofrenia.

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O que são Acontecimentos de Vida, segundo Wheaton (1994)?

Wheaton (1994) define os acontecimentos de vida como eventos discretos, isto é, têm um início e fim claros, e observáveis, que exigem alguma forma de adaptação psicológica e/ou social por parte do indivíduo.


55
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Que tipos de acontecimentoss de ida identifica Halford (2001)?

Halford (2001) considera que os acontecimentos de vida incluem tanto mudanças normativas (como a mudança de escola ou trabalho) como eventos atípicos e menos previsíveis (como a morte de um filho).

56
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Porque são os acontecimentos de vida importantes para a Psicopatologia do Desenvolvimento?

Porque podem influenciar as trajetórias desenvolvimentais e, consequentemente, os padrões de adaptação dos indivíduos. No exemplo da gravidez na adolescência, este é um acontecimento de vida que tem a capacidade de atuar como um ponto de viragem, modificando a trajetória desenvolvimental da adolescente. Assim, face a um acontecimento de vida, existe sempre a possibilidade de adaptação ou desadaptação.

57
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Porque é que o desenvolvimento é considerado probabilístico, segundo Holmbeck (1999)?

Considerando os conceitos de risco, vulnerabilidade, trajetórias desenvolvimentais, não-linearidade (…), a relação entre eventos/adaptações antecedentes e consequente adaptação é assumida como probabilística e não causal.

Holmbeck (1999) afirma que adaptações prévias (ex. padrão de vinculação inseguro) não são uma condição suficiente para se inferir psicopatologia posterior. Em vez disso, eventos e adaptações anteriores estão probabilisticamente associados com a qualidade do funcionamento posterior, mas a descontinuidade continua sendo possível.

58
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O que é a epigénese probabilística?

É o princípio segundo o qual as experiências e adaptações anteriores estão probabilisticamente associadas à qualidade do funcionamento posterior, mas não o determinam, existindo sempre a possibilidade de descontinuidade desenvolvimental.

59
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O que é a homeostase, segundo von Bertalanffy (1968)?

A homeostase corresponde a um estado de estabilidade ou equilíbrio de um sistema, sendo que os sistemas terão uma tendência natural para a homeostase.

60
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A homeostase implica sempre um funcionamento adaptativo?

Não. A homeostase não implica a ausência de problemas, podendo esta ser disfuncional, em que um sistema mantem-se estável mesmo com padrões problemáticos.

61
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Distingue entre a homeostase funcional e disfuncional.

A homeostase funcional suporta o bem-estar e desenvolvimento dos elementos, enquanto que a homeostase disfuncional sacrifica o bem-estar dos elementos do sistema para que este mantenha o seu padrão habitual de funcionamento.

62
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O que torna os sistemas complexos?

Os sistemas são complexos, considerando que existe nestes:

  1. Interdependência (alteração num elemento afeta os outros);

  2. Intersubjetividade (realidade é construída através da relação entre os elementos);

  3. Circularidade (influência entre os elementos é recíproca, indo de uma pessoa para a outra até voltar a primeira).


63
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Porque é que uma mudança num sistema pode provocar instabilidade nos seus elementos?

Devido à interdependência e à circularidade, uma alteração num elemento pode propagar-se aos restantes, afetando o funcionamento de todo o sistema. Essa mudança pode gerar instabilidade, exigindo que os elementos do sistema adaptem-se à nova situação, podendo esta ser, ou não, bem-sucedida.

64
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Dê um exemplo de como uma mudança num sistema pode provocar uma descontinuidade negativa.

Um divórcio provoca uma mudança no sistema familiar, que pode afetar o adolescente devido à interdependência entre os seus elementos. O adolescente tem de se adaptar à instabilidade familiar e ao novo equilíbrio do sistema. Se não conseguir adaptar-se positivamente a essa mudança, esta pode contribuir para uma descontinuidade negativa no seu desenvolvimento.