1/59
Cartões de vocabulário temático e conceitos essenciais da unidade curricular Arte da Medicina, cobrindo História da Medicina, Medicina Tradicional Indiana e Chinesa, Bioética e Deontologia, Humanização, Dor e Relação Médico-Doente.
Imhotep
Médico, arquiteto, astrónomo e sábio que viveu no Egito Antigo (2700 a 2670 a.C.); considerado o "Pai das Ciências Médicas no Egipto", patrono dos médicos egípcios e provável autor do Papiro de Smith. O seu nome significa "aquele que vem em Paz".
Papiro de Ebers
Documento médico egípcio redigido por volta de 1550 a.C. (descoberto/publicado em 1875), focado principalmente em produtos fármaco-terapêuticos de origem animal e vegetal e em fórmulas mágicas que evocam divindades e elementos da Natureza.

Papiro de Smith
Tratado cirúrgico sobre trauma mais antigo que se conhece (rolo de 5 metros com 110 colunas), cuja autoria é atribuída a Imhotep. Apresenta o exame metódico do corpo humano da cabeça aos pés e descreve de forma pragmática 48 lesões traumáticas.

Bastão de Asclépio
Símbolo ancestral da Medicina que consiste num bastão de madeira com uma serpente enrolada em três voltas, representando a figura mítica de Asclépio, herói curador e semideus grego da cura.

Cálice de Higia
Símbolo tradicional da Farmácia associado a Higia, deusa grega da saúde e filha de Asclépio e Epione; consiste numa taça com uma serpente enrolada ao seu redor.
Hipócrates
Médico grego (460 a.C. – 377 a.C.) considerado o Pai da Medicina Ocidental. Emancipou a medicina das práticas religiosas e teúrgicas, transformando-a numa profissão e disciplina racional e independente baseada na observação clínica.
Claudio Galeno
Médico e filósofo greco-romano (129 d.C. – 199 d.C.) que atuou como médico dos gladiadores em Pérgamo. Formulou descrições fundamentais sobre o papel do cérebro, a laringe e os rins, cujas obras e teorias anatómicas (baseadas em dissecações de macacos e porcos) vigoraram na Europa por mais de um milénio.
Santa Hildegarda de Bingen
Monja beneditina, mística e abadessa alemã (1098–1179), autora de "Liber Scivias" e de cerca de 2.000 prescrições médicas à base de plantas. Concebeu o corpo e a alma de forma integrada e foi declarada Doutora da Igreja em 2012 pelo Papa Bento XVI.
Maimónides (Rambam)
Erudito e médico judeu medieval (1135–1204), autor da "Mishna Torah" e do "Regimen Sanitatis" (1198), pioneiro na exposição da medicina psicossomática ao afirmar que o bem-estar físico depende diretamente do equilíbrio mental.
Amato Lusitano (João Rodrigues)
Médico humanista judeu português de Castelo Branco (1511–1568), professor de anatomia na Universidade de Ferrara. Descobriu as válvulas venosas e a veia ázigos, sendo célebre pela sua obra clínica "Curationium Centuriae Septem" (700 casos clínicos descritos rigorosamente).
Garcia da Orta
Médico judeu português (1501–1568) que se fixou em Goa (Índia), pioneiro da farmacologia, botânica e medicina tropical, célebre pela publicação de "Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia" (1563).
El-Razhes (al-Razi)
Médico persa/árabe (865–926 d.C.), diretor dos hospitais de Rayy e Bagdade, autor do "Kitab El-Hawi" e do "Livro Real" (Al-Mansur). Foi o primeiro a diferenciar a varíola do sarampo e a utilizar o álcool como antisséptico.
Avicena (Ibn Sina)
Médico e filósofo persa (980–1037), denominado o "Príncipe dos Médicos", autor de "O Cânone da Medicina" (Al-Qânun). Descreveu de forma pioneira a meningite, a pleurisia, a natureza contagiosa da tuberculose e a transmissão de doenças pela água e pelo solo.
Abulcassis (Al-Zahrawi)
Cirurgião andaluz de Córdova (936–1013), considerado o "Pai da Cirurgia Moderna". Escreveu "El-Tasrif", enciclopédia que introduziu ilustrações pormenorizadas de mais de duas centenas de instrumentos cirúrgicos e técnicas de cauterização.
André Vesálio
Médico anatomista belga (1514–1564), professor na Universidade de Pádua e fundador da anatomia moderna com a publicação de "De Humani Corporis Fabrica" (1543), refutando conceções galénicas através da dissecação de cadáveres humanos.
William Harvey
Médico inglês (1578–1657), considerado o Pai da Fisiologia Moderna, que demonstrou o mecanismo da circulação sanguínea sistémica e descreveu o coração como uma bomba mecânica com válvulas unidirecionais.
Girolamo Fracastoro
Médico renascentista italiano (1478–1553) que formulou os fundamentos do contágio direto e indireto, propondo que as infeções eram transmitidas por minúsculas partículas ou "sementes de infeção" (seminaria contagionis).
Ambroise Paré
Cirurgião militar francês do século XVI que revolucionou o tratamento de amputações ao introduzir a laqueação (ligadura cirúrgica) das artérias, substituindo a cauterização com ferro em brasa ou óleo a ferver.
Dominique-Jean Larrey
Cirurgião-chefe do exército de Napoleão (1766), criador das "ambulâncias voadoras" para resgate imediato de feridos no campo de batalha e precursor da amputação precoce nas primeiras 24 horas e da crioanalgesia.

Faixa de Esmarch
Ligadura de tecido triangular criada pelo cirurgião Friedrich von Esmarch, concebida para ser dobrada em diversas configurações para estancar hemorragias e imobilizar fraturas no terreno militar.
Jean-Henri Dunant
Humanista suíço que, após testemunhar o sofrimento dos soldados feridos na Batalha de Solferino, fundou o Comité Internacional da Cruz Vermelha (1863), promovendo as Convenções de Genebra e recebendo o primeiro Prémio Nobel da Paz em 1901.
Hipotensão Permissiva
Princípio de reanimação cirúrgica no trauma formulado inicialmente por Walter Cannon, que preconiza evitar a elevação excessiva da tensão arterial com fluidos antes do controlo mecânico da hemorragia, prevenindo o desalojamento de coágulos e o agravamento do sangramento.
ATLS (Advanced Trauma Life Support)
Programa padronizado de formação e sistematização de condutas no atendimento pré-hospitalar e hospitalar a doentes politraumatizados graves, fundado em 1978 pelo cirurgião ortopedista James Styner.
Ayurveda
Sistema tradicional de medicina da Índia, cujo nome significa "Ciência da Vida"; baseia-se numa abordagem bioenergética e holística voltada para a promoção da longevidade com qualidade, saúde e equilíbrio individual.
Tridoshas
As três forças biológicas ou biótipos fundamentais da medicina Ayurveda — Vata, Pitta e Kapha — resultantes da combinação dos cinco grandes elementos (Mahabuthas) e cuja proporção inata individual determina a saúde física e psicológica.
Vata
Dosha ayurvédico constituído por Ar e Éter. Responsável pelo movimento biológico, sistema nervoso, respiração (Prana) e circulação; manifesta propriedades secas, frias, leves e agitadas, estando associado psicologicamente ao medo e à criatividade.
Pitta
Dosha ayurvédico constituído por Fogo e Água. Responsável por todas as transformações metabólicas, calor digestivo, assimilação bioquímica e discernimento mental; tem propriedades quentes, penetrantes e oleosas, predispondo à raiva e à determinação.
Kapha
Dosha ayurvédico constituído por Água e Terra. Responsável pela estabilidade física, consolidação estrutural, massa dos tecidos, imunidade e lubrificação das articulações; tem propriedades oleosas, frias, pesadas e lentas, ligando-se emocionalmente ao apego e ao amor.
Trigunas
As três forças ou qualidades subtis da matéria que moldam o funcionamento mental e o equilíbrio emocional: Sattva (harmonia, clareza e paz), Rajas (movimento, agitação e ansiedade) e Tamas (inércia, letargia e depressão).
Agni
Conceito ayurvédico correspondente ao "fogo digestivo" e metabólico (com destaque para Jatharagni a nível gastrointestinal), responsável pela conversão e digestão adequada dos nutrientes e das impressões sensoriais e mentais.
Ama
Conjunto de biotoxinas e resíduos metabólicos impuros, frios, densos e pegajosos formados por falhas na capacidade digestiva do Agni, que se acumulam nos tecidos e constituem a raiz inicial dos processos patológicos no organismo.
Marma
Pontos anatómicos e bioenergéticos vitais da medicina Ayurveda (108 pontos principais) onde a consciência se articula com o corpo físico e onde se cruzam estruturas como tendões, vasos e nervos.

Marma Amsa
Ponto de pressão vital ayurvédico bilateral situado no músculo trapézio, acima da omoplata, que acumula tensões físicas e psicológicas ligadas à ansiedade, stresse e esforço de vontade.

Teoria dos Cinco Elementos (MTC)
Modelo da Medicina Tradicional Chinesa que relaciona cinco dinâmicas elementares e os seus órgãos/vísceras correspondentes: Madeira (Fígado/Vesícula Biliar), Fogo (Coração/Intestino Delgado), Terra (Baço-Pâncreas/Estômago), Metal (Pulmão/Intestino Grosso) e Água (Rim/Bexiga).

Cun (ou Tsun)
Unidade de medida proporcional e individualizada na Medicina Tradicional Chinesa baseada nas dimensões da mão do próprio doente (ex.: largura da falange terminal do polegar equivale a 1 cun; dois dedos juntos equivalem a 1,5 cun; quatro dedos equivalem a 3 cun).
Hegu (4 do Intestino Grosso)
Ponto de acupuntura situado no dorso da mão entre o polegar e o indicador, no topo da prega quando aproximados; tem indicação clínica primordial no alívio da dor geral e do stresse.
Nei Guan (6 do Pericárdio)
Ponto de acupuntura situado a 2 cuns proximalmente à prega anterior do punho, localizado entre os tendões flexores; é indicado para o tratamento de ansiedade, medos, náuseas e vómitos.
Shenmen (7 do Coração)
Ponto de acupuntura localizado na depressão do bordo cubital da face anterior do punho, indicado para regular a circulação sanguínea e serenar as perturbações da mente e do espírito.
Zusanli (36 do Estômago)
Ponto de acupuntura situado na perna, 1 dedo lateral ao bordo inferior da tuberosidade tibial e 3 cun abaixo do joelho; indicado para distúrbios do trato gastrointestinal como gastrites, úlceras, náuseas e obstipação.
Zanzhu (2 da Bexiga)
Ponto de acupressão situado na raiz do bordo medial da sobrancelha, no osso frontal; indicado para desconforto visual e nasal, caracterizado por ser um ponto no qual é interdita a punctura com agulhas.

YinTang
Ponto de acupuntura localizado na linha média entre as extremidades mediais das duas sobrancelhas; trata-se do único ponto da lista que não é bilateral, sendo indicado para acalmar a mente e beneficiar as queixas nasais.
Medicina Narrativa
Prática clínica concebida por Rita Charon, caracterizada pelo desenvolvimento de competências narrativas para reconhecer, acolher, interpretar e integrar a história de sofrimento do doente, articulando a técnica biomédica com a singularidade existencial da pessoa.
Parallel Chart (Registo Clínico Paralelo)
Exercício de escrita reflexiva e criativa mantido pelos profissionais de saúde em paralelo ao prontuário médico convencional, permitindo elaborar e examinar reações afetivas, dilemas éticos e a dimensão subjetiva do encontro clínico.
Princípio da Responsabilidade (Hans Jonas)
Imperativo ético contemporâneo que obriga a humanidade a orientar a sua intervenção técnica e científica de forma a salvaguardar a permanência indefinida de uma vida humana autêntica e a integridade de toda a biosfera futura.
Heurística do Medo
Postura deliberativa formulada por Hans Jonas que propõe que, diante de incertezas e inovações com potenciais riscos catastróficos irreversíveis (ex.: clonagem, manipulação genética), deve-se dar prioridade de reflexão ao pior cenário possível e adotar a prudência ou a inação.
Princípio da Igualdade na Consideração de Interesses
Princípio moral de Peter Singer que estabelece que o interesse em não sofrer de qualquer entidade senciente (humana ou animal) deve ser pesado imparcialmente com o mesmo valor moral, denunciando o especismo como discriminação injustificada.
Teoria do Justo Meio (Mesotês)
Doutrina moral aristotélica segundo a qual a virtude ética consiste num ponto intermédio ponderado entre dois extremos viciosos (um por defeito e outro por excesso), proporcional e relativo à situação singular de cada indivíduo.
Imperativo Categórico
Fórmula da lei moral formulada por Immanuel Kant, segundo a qual o sujeito deve agir apenas de acordo com máximas que possa simultaneamente querer que se transformem em leis universais, tratando os seres racionais sempre como fins em si mesmos e nunca meramente como meios.
Código de Nuremberga (1947)
Documento fundador da bioética moderna resultante do julgamento de médicos criminosos de guerra nazis, que instituiu a exigência impreterível do consentimento informado e voluntário como condição indispensável para a realização de investigações em seres humanos.
Relatório Belmont (1978)
Documento ético norte-americano redigido após a denúncia do Estudo de Sífilis de Tuskegee, responsável por definir os três princípios éticos fundamentais para a investigação biomédica: Respeito pelas Pessoas (Autonomia), Beneficência e Justiça.
Modelo Principialista (Beauchamp e Childress)
Estrutura conceptual clássica da bioética (1979) assente em quatro princípios norteadores da conduta biomédica: Autonomia, Não-Maleficência, Beneficência e Justiça.
Juízo Prudencial (Paul Ricoeur)
Primeiro nível da abordagem do julgamento clínico, assente na sabedoria prática (phronesis) e na confiança mútua face à singularidade do sofrimento de um doente específico.
Juízo Deontológico (Paul Ricoeur)
Segundo nível do julgamento médico, no qual o compromisso individual é enquadrado por normas universais, exigências contratuais e códigos profissionais (ex.: sigilo médico, direito à verdade e consentimento informado).
Juízo Reflexivo (Paul Ricoeur)
Terceiro nível da deliberação médica, de natureza bioética e filosófica, onde o profissional e a sociedade submetem a exame crítico as decisões tomadas, legitimando normas à luz do sofrimento, da finitude humana e da justiça coletiva.

Filosofia da Medicina (Edmund D. Pellegrino)
Quadro teórico que compreende a medicina como um encontro interpessoal de mútua confiança e uma arte mista (Tekné Mixté), defendendo a ética das virtudes e a compaixão como núcleo orientador da praxis terapêutica.
Dor Nociceptiva
Tipo de dor fisiológica decorrente da estimulação direta dos recetores nociceptivos periféricos em tecidos somáticos ou viscerais lesionados; tem função biológica de alarme e caráter protetor.
Dor Neuropática
Tipo de dor patológica desencadeada por lesão ou doença primária no sistema nervoso somatossensorial, manifestando-se frequentemente por sintomas de choque elétrico, ardor, formigueiro, alodinia e hiperalgesia.
Inconsciente Coletivo
Conceito estrutural da Psicologia Analítica de Carl G. Jung que descreve o substrato psíquico universal e inato partilhado por toda a humanidade, composto por arquétipos e instintos que se manifestam espontaneamente sob a forma de símbolos e imagens mitológicas.

Default Mode Network (DMN)
Rede neural cerebral descrita por Marcus Raichle (incluindo o córtex pré-frontal medial, o córtex cingulado posterior, o hipocampo e a amígdala) que se mantém ativa quando a mente devaneia em pensamentos autorreferenciais e desativa durante tarefas que exigem foco e atenção plena.
Mindfulness
Técnica de regulação atencional e meditação baseada no ato intencional de prestar atenção ao momento presente com uma postura de abertura, curiosidade, aceitação e suspensão de julgamento.