Flashcards de Introdução à Cardiologia e Eletrocardiograma

Estrutura, Organização Acadêmica e Avaliações

  • Estrutura e Frequência das Avaliações:

    • As avaliações cobram conhecimentos cardiológicos fundamentais e exigem alto nível de retenção teórica e prática.

    • A recuperação das provas é realizada na semana imediatamente posterior à aplicação da prova regular.

    • O cronograma de dias de prova é integrado às aulas regulares: a avaliação ocorre das 10h10\text{h} às 11h11\text{h}, seguida de aula teórica normal das 11h11\text{h} em diante.

Fundamentos do Sistema Cardiovascular e Anatomia Cardíaca

  • Componentes Anatômicos do Tórax e Sistema Cardiovascular:

    • O sistema cardiovascular é composto pelo tronco coronariano esquerdo, tronco coronariano direito, átrios e ventrículos.

    • Inclui estruturas de suporte, válvulas cardíacas e grandes vasos, como a artéria aorta e a artéria pulmonar.

  • Mapeamento Anatômico e Correlação Clínica de Patologias:

    • Qualquer estrutura anatômica do tórax pode apresentar disfunções ou processos patológicos:

    • Artérias Coronárias: Obstrução ou entupimento aterosclerótico que evolui para o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).

    • Pericárdio: Ocorre o acúmulo de fluido na cavidade pericárdica levando ao tamponamento cardíaco (restrição mecânica ao enchimento das câmaras).

    • Válvulas Cardíacas: Lesões estruturais resultando em estenoses (dificuldade de abertura) e insuficiências valvulares (regurgitação).

    • Grandes Vasos: Formação de aneurismas, dissecções agudas de aorta e tromboembolismo pulmonar (TEP) na artéria pulmonar.

  • Interpretação e Visualização de Exames de Imagem:

    • A anatomia descritiva teórica deve ser correlacionada com exames na prática clínica real.

    • Ao analisar uma radiografia de tórax ou uma ressonância magnética cardíaca (RMC), é necessário correlacionar a imagem bidimensional com a anatomia tridimensional em movimento dinâmico.

  • Diferenças Estruturais entre os Ventrículos:

    • O Ventrículo Esquerdo (VE) possui espessura parietal, massa muscular e força de contração significativamente maiores do que o Ventrículo Direito (VD).

    • O VD trabalha em um circuito de baixa pressão (circulação pulmonar), enquanto o VE responde pela circulação sistêmica de alta pressão.

    • Essa assimetria de massa muscular é o pilar anatômico para a compreensão do vetor elétrico resultante no eletrocardiograma (ECG).

Eletrocardiograma (ECG): Origem Elétrica e Fisiologia das Ondas

  • Propriedades Eletrofisiológicas da Célula Miocárdica:

    • Em repouso, a célula miocárdica encontra-se polarizada, mantendo uma carga elétrica interna predominantemente negativa no polo intracelular.

    • Por meio da despolarização, ocorrem alterações rápidas no fluxo iônico que tornam o meio intracelular positivo, desencadeando a contração mecânica do miocárdio.

  • Bioenergética e Equilíbrio Iônico:

    • A manutenção da polaridade e a deflagração do potencial de ação dependem da bomba de sódio e potássio (Na+/K+Na^+/K^+-ATPase), responsável pelo gasto de energia celular (ATP).

    • O aporte energético celular requer consumo constante de substratos metabólicos como glicose e oxigênio (O2O_2).

    • A função mecânica e elétrica adequada exige rigoroso equilíbrio dos íons potássio (K+K^+), sódio (Na+Na^+), cálcio (Ca2+Ca^{2+}) e magnésio (Mg2+Mg^{2+}). Alterações na concentração de potássio alteram diretamente o potencial de repouso miocárdico e desencadeiam arritmias cardíacas severas.

  • Evolução Filogenética do Coração:

    • Organismos primitivos (como anelídeos/minhocas) possuem sistemas circulatórios rudimentares compostos unicamente por células contráteis simples.

    • A evolução em répteis, aves e mamíferos desenvolveu um coração septado e compartimentalizado, com sistemas isolados e altamente eficientes, permitindo o suporte metabólico a organismos complexos.

  • Tipos de Células no Tecido Cardíaco:

    • Miócitos Propriamente Ditos: Células musculares especializadas na contração mecânica e ejeção sanguínea.

    • Sistema de Condução: Miócitos modificados e especializados na geração e condução ultrarrápida de impulsos elétricos, atuando como um sistema elétrico intrínseco do coração.

  • Origem Histórica e Princípio de Registro do ECG:

    • O ECG registra graficamente em papel milimetrado a atividade elétrica gerada pelo coração a partir de eletrodos posicionados na superfície corporal.

    • A atividade elétrica cardíaca segue um padrão cíclico e organizado, composto por ondas de despolarização e repolarização temporalmente ordenadas.

  • Morfologia e Fisiologia das Ondas Eletrocardiográficas:

    • Onda P: Representa a despolarização sequencial e sístole de ambos os átrios. Sua pequena amplitude reflete a menor massa miocárdica atrial (parede muito fina/delgada) comparada à ventricular. Atriomegalias causam alterações na duração e voltagem da Onda P.

    • Complexo QRS: Corresponde à despolarização ventricular rápida e sístole dos ventrículos. A condução ultrarrápida pelo sistema His-Purkinje garante que o complexo seja estreito. O vetor principal do QRS é dominado pela massa superior do Ventrículo Esquerdo, suprimindo o vetor elétrico do VD. A ausência de QRS é incompatível com a vida (diferente dos átrios, a função ventricular é vital).

    • Onda T: Representa o processo de repolarização ventricular (restabelecimento do potencial negativo de repouso da célula miocárdica), preparando o coração para o próximo ciclo. Habitualmente acompanha a polaridade do complexo QRS (se QRS é positivo, a Onda T tende a ser positiva).

Sistema de Condução Cardíaco e Condução Atrioventricular

  • Nó Sinoatrial (Nó Sinusal ou Keith-Flack):

    • Localizado na porção superior do átrio direito, próximo à desembocadura da veia cava superior.

    • Atua como o marcapasso fisiológico do coração, gerando impulsos elétricos espontâneos através de despolarizações automáticas periódicas.

  • Propagação do Estímulo Atrial:

    • O estímulo gerado no nó sinoatrial propaga-se pelos feixes internodais pelo átrio direito e pelo feixe de Bachmann em direção ao átrio esquerdo, despolarizando os miócitos atriais sequencialmente (sincício funcional).

  • Junção Atrioventricular (Nó AV e Feixe de His):

    • Isolamento Elétrico: Os átrios e ventrículos são eletricamente isolados por um anel fibroso atrioventricular que atua como isolante elétrico. A junção atrioventricular é a única via de condução fisiológica do estímulo dos átrios para os ventrículos.

    • Função de Atraso Fisiológico: O Nó AV retarda a condução do estímulo elétrico ("porteiro"). Esse atraso temporal é essencial para permitir que os átrios completem a contração (sístole atrial) e esvaziem o sangue nos ventrículos antes do início da sístole ventricular, prevenindo o choque mecânico entre as câmaras.

Derivações Eletrocardiográficas e Eixo Elétrico do Coração

  • Derivações do Plano Frontal (D1D_1, D2D_2, D3D_3, aVRaVR, aVLaVL, aVFaVF):

    • Avaliam a atividade elétrica nos eixos superior-inferior e direito-esquerdo.

    • D1D_1 situa-se a 0∘0^\circ, D2D_2 a 60∘60^\circ, D3D_3 a 120∘120^\circ, aVFaVF a 90∘90^\circ (inferior) e aVRaVR a −150∘-150^\circ (ombro direito).

    • Como a maior parte da massa miocárdica (VE) projeta-se para baixo e para a esquerda, a derivação aVRaVR registra habitualmente deflexões predominantemente negativas (onda P e QRS negativos), por se afastar da direção do vetor elétrico dominante.

  • Determinação do Eixo Elétrico Ventricular:

    • O eixo elétrico normal do QRS varia entre 0∘0^\circ e 90∘90^\circ (comumente próximo a D2D_2, entre 60∘60^\circ e 70∘70^\circ). Pode ser determinado identificando a derivação de maior amplitude positiva.

    • Variações biotípicas alteram a posição do eixo: pacientes longilíneos ou com DPOC/hiperinsuflação pulmonar possuem o coração em posição pendente ("em gota"), deslocando o eixo para a direita/inferior (D3D_3 mais positivo e D1D_1 mais negativo). Pacientes brevilíneos, obesos ou grávidas possuem diafragma elevado, deslocando o eixo para cima e para a esquerda (D1D_1 mais positivo).

  • Derivações Precordiais (V1V_1 a V6V_6):

    • Avaliam o plano horizontal (ântero-posterior e látero-lateral).

    • V1V_1 e V2V_2 situam-se no 4∘4^\circ espaço intercostal (à direita e esquerda do esterno, respectivamente); V4V_4 no 5∘5^\circ espaço na linha hemiclavicular; V6V_6 no 5∘5^\circ espaço na linha axilar média esquerda.

    • As derivações V5V_5 e V6V_6 observam a parede lateral do VE e apresentam perfil morfológico equivalente à derivação D1D_1 (V6V_6 posicionado no tórax e D1D_1 no braço esquerdo).

    • Variações na parede torácica interferem na amplitude do QRS: indivíduos obesos, asmáticos ou com enfisema apresentam atenuação do sinal elétrico (baixa voltagem), enquanto jovens magros e atletas de alto rendimento exibem hipervoltagem fisiológica do QRS sem cardiopatia subjacente.

  • Mapeamento Topográfico e Derivações Adicionais (V3RV_3R, V4RV_4R, V7V_7, V8V_8, V9V_9):

    • Mapeamento de Paredes: Parede anterior (V1V_1 a V4V_4), parede lateral (V5V_5, V6V_6, D1D_1, aVLaVL) e parede inferior (D2D_2, D3D_3, aVFaVF).

    • Derivações Complementares: Indicadas em condições específicas, tais como suspeita de infarto do ventrículo direito (V3RV_3R, V4RV_4R), infarto de parede dorsal/posterior (V7V_7, V8V_8, V9V_9 nas costas do paciente), dextrocardia, deformidades torácicas (ex: pectus excavatum) ou anomalias anatômicas (como agenesia de pericárdio).

Hemodinâmica, Volumetria Ventricular e Fisiopatologia da Insuficiência Cardíaca

  • Parâmetros Volumétricos Ventriculares e Fração de Ejeção:

    • Volume Diastólico Final (VDF): Volume presente no ventrículo ao final do relaxamento/enchimento (aprox. 1.5 mL/kg1.5\,\text{mL/kg}, totalizando 75 mL75\,\text{mL} em um indivíduo de 50 kg50\,\text{kg}).

    • Volume Sistólico Final (VSF): Volume residual restante na câmara ventricular após a ejeção (aprox. 25 mL25\,\text{mL} no exemplo de 50 kg50\,\text{kg}).

    • Volume de Ejeção (VEj): Volume ejetado para a aorta ou artéria pulmonar a cada batimento (aprox. 1.0 mL/kg1.0\,\text{mL/kg}, ou 50 mL50\,\text{mL} no exemplo de 50 kg50\,\text{kg}).

    • Fração de Ejeção (FE): Porcentagem do VDF ejetada durante a sístole (FE=VEjVDF×100%\text{FE} = \frac{\text{VEj}}{\text{VDF}} \times 100\%). No caso do exemplo: FE=50 mL75 mL×100%≈66%\text{FE} = \frac{50\,\text{mL}}{75\,\text{mL}} \times 100\% \approx 66\%. O intervalo normal de referência fisiológica varia de 58%58\% a 75%75\%.

  • Débito Cardíaco (DC) e Mecanismos de Adaptação ao Esforço:

    • O Débito Cardíaco é o volume total ejetado por minuto (DC=FC×VEj\text{DC} = \text{FC} \times \text{VEj}), variando em repouso entre 4.2 L/min4.2\,\text{L/min} e 7.0 L/min7.0\,\text{L/min}.

    • Durante o exercício físico ou estresse metabólico, o acúmulo de lactato e a demanda por O2O_2 exigem aumento do DC para 10–20 L/min10\text{--}20\,\text{L/min} (ou até 30 L/min30\,\text{L/min} em atletas). Esse aumento ocorre mediante elevação da Frequência Cardíaca (mecanismo cronotrópico) e aumento da inotropia/força de ejeção.

  • Regime de Pressões Intracavitárias e Mecanismo de Sucção Atrial:

    • Em condições normais, a pressão sistólica do VE atinge cerca de 120 mmHg120\,\text{mmHg} em repouso (podendo atingir 180–220 mmHg180\text{--}220\,\text{mmHg} no exercício), enquanto a pressão no Átrio Esquerdo (AE) permanece muito baixa, entre 0 mmHg0\,\text{mmHg} e 10 mmHg10\,\text{mmHg} (e no Átrio Direito entre 0 mmHg0\,\text{mmHg} e 4 mmHg4\,\text{mmHg}).

    • Essa baixa pressão atrial cria um efeito de vácuo/sucção que facilita o retorno venoso pulmonar e sistêmico sem exigir trabalho sob alta pressão.

  • Fisiopatologia da Insuficiência Cardíaca (IC) e Edema Pulmonar:

    • Em disfunções miocárdicas (como na Miocardiopatia Dilatada ou pós-IAM), o Ventrículo Esquerdo perde a capacidade de ejetar adequadamente ou de relaxar com baixas pressões.

    • Para tentar manter o débito cardíaco, ocorre elevação da pressão diastólica final do VE, que é transmitida retrogradamente para o Átrio Esquerdo.

    • Em situações de esforço ou progressão da doença, a pressão no AE eleva-se (subindo do patamar normal de 0–10 mmHg0\text{--}10\,\text{mmHg} para até 25 mmHg25\,\text{mmHg}), o que aumenta substancialmente a pressão hidrostática nos capilares pulmonares.

    • Quando a pressão hidrostática capilar supera a pressão oncótica do plasma, ocorre extravasamento de fluido para o espaço intersticial e alveolar (edema pulmonar), provocando crepitações auscultatórias basais, dispneia e intolerância aos esforços (ex: quadro clínico de dispneia progressiva na esteira em paciente com miocardiopatia não diagnosticada).

    • Na falência de Ventrículo Direito, a transmissão retrógrada de pressão atinge o sistema venoso sistêmico, gerando turgência jugular, congestão hepática, congestão renal, ascite e edema de membros inferiores.

    • Choque Cardiogênico: Estágio grave de falência de bomba (frequentemente pós-IAM agudo), caracterizado por hipotensão severa (ex: PA 80/60 mmHg80/60\,\text{mmHg}), má perfusão periférica, tempo de enchimento capilar alentecido, confusão/rebaixamento, edema agudo de pulmão (crepitações disseminadas) e dessaturação de oxigênio (ex: 77%77\%).