Faringotonsilites e Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)
Introdução e Terminologia
Angina: Definida clinicamente como dor de garganta.
Instituição de Origem: UNESC.
Anatomia do Anel Linfático de Waldeyer e Orofaringe
Constituição do Anel Linfático de Waldeyer: O anel é composto por um conjunto de tecidos linfoides distribuídos na entrada das vias aerodigestivas superiores:
Tonsila Faríngea (Adenoide): Localizada no teto da nasofaringe.
Tonsilas Palatinas: Localizadas na orofaringe, entre os pilares amigdalianos.
Tonsila Lingual: Localizada na base da língua.
Tecido Linfoide Difuso e Nodular: Espalhado pela mucosa da faringe.
Estruturas Anatômicas Adjacentes (Nasofaringe e Orofaringe):
Prega Salpingofaríngea.
Óstio Faríngeo da Tuba Auditiva.
Recesso Faríngeo.
Palato Duro e Palato Mole.
Úvula Palatina.
Cavidade Oral e Língua.
Osso Hioide.
Ligamento Hioepiglótico e Ligamento Tireoideo Médio.
Estruturas Laríngeas e Adjacentes:
Cartilagem Epiglótica.
Prega Ariepiglótica.
Músculo Aritenoideo Transverso.
Lâmina da Cartilagem Cricoidea.
Cartilagem Tireoidea.
Prega Vocal.
Traquéia e Esôfago.
Histologia das Tonsilas:
Epitélio: Recobre a superfície.
Criptas Profundas: Invaginações do epitélio para o interior do tecido linfoide (especialmente proeminentes na tonsila palatina).
Centros Reativos: Localizados nos folículos secundários do tecido linfoide nodular.
Músculo Estriado Esquelético: Compõe a base da fosa amigdalina.
Tonsilites: Classificação e Tamanho
Classificação Clínica:
Faringite: Inflamação da faringe.
Adenoidite: Inflamação da tonsila faríngea.
Amigdalite Aguda: Infecção súbita das tonsilas palatinas.
Amigdalite Aguda Recorrente: Episódios repetidos de infecção aguda.
Faringite Crônica: Inflamação persistente.
Graduação do Tamanho das Amígdalas (Escala de Brodsky):
Grau I: Obstrução de até do espaço da orofaringe.
Grau II: Obstrução entre e
Grau III: Obstrução entre e
Grau IV: Obstrução maior que (amígdalas "beijoqueiras").
Etiologia das Faringotonsilites
Faringotonsilites Virais:
Representam mais de dos casos.
Vírus Relacionados: Adenovírus, EBV (Epstein-Barr), Influenzae e Parainfluenzae, VSR (Vírus Sincicial Respiratório), CMV (Citomegalovírus), HSV (Herpes Simplex) e Coronavírus.
Faringotonsilites Bacterianas:
Representam cerca de dos casos.
Principal Agente: Streptococcus beta-hemolítico do grupo A (Streptococcus pyogenes).
Complicações Relacionadas: Escarlatina, Glomerulonefrite e Endocardite.
Outros Agentes: Mycoplasma pneumoniae, Staphylococcus aureus, Haemophilus sp, Moraxella catarrhalis.
Tratamento das Faringotonsilites
Medidas Sintomáticas:
Hidratação e analgesia.
Anti-inflamatórios (Corticoides): Uso por a dias.
Antibioticoterapia:
Indicada se não houver melhora em dias com doses de Prednisona () ou se houver sinais claros de amigdalite bacteriana. Duração padrão de dias.
Esquemas Antibióticos:
Penicilina G Benzatina (Dose única):
Pacientes com < 20\,kg: .
Pacientes com > 20\,kg: .
Amoxicilina: Primeira linha oral.
Casos Recorrentes: Amoxicilina com Clavulanato ou Amoxicilina com Sulbactam.
Alternativas: Axetilcefuroxima (Zinnat), Claritromicina, Levofloxacino (apenas para adultos), Ceftriaxone (IM por dias).
Mononucleose Infecciosa
Agente Etiológico: Vírus Epstein-Barr (EBV).
Quadro Clínico: Febre, mal-estar, cefaleia, linfoadenopatia, hepatoesplenomegalia, hiperemia de mucosa e petéquias na junção do palato duro com o palato mole.
Critério de Suspeição: Adolescentes ou adultos jovens com amigdalite aguda purulenta que não apresenta melhora após o tratamento com antibióticos comuns.
Diagnóstico: Dosagem de IgM e IgG para mononucleose.
Tratamento: Sintomático, com foco em corticoides e analgésicos.
Complicação Supurativa: Abscesso Periamigdaliano
Epidemiologia e Etiologia: Comum em adultos jovens. Resulta da extensão local da infecção. A flora é mista, sendo o S. pyogenes o agente mais comum, podendo haver associação com bactérias anaeróbias.
Sintomatologia:
Odinofagia intensa e unilateral.
Sialorreia (salivação excessiva).
Alteração no timbre da voz ("voz de batata quente").
Otalgia referida e dor cervical ipsilateral.
Trismo (dificuldade de abrir a boca).
Exame Físico:
Edema local.
Deslocamento medial e/ou anterior da tonsila e da úvula (desvio da úvula para o lado contralateral).
Pode haver exsudato cobrindo a tonsila.
Linfoadenopatia cervical palpável.
Diagnóstico: História clínica, exame físico e Tomografia Computadorizada (TC) de pescoço.
Tratamento:
Punção (para diferenciar flegmão de abscesso) ou drenagem cirúrgica.
Antibioticoterapia endovenosa (EV): Clindamicina + Ceftriaxone.
Corticosteroides: Hidrocortisona ( EV de ) ou Prednisona VO ().
Cáseo Amigdaliano
Definição: Depósitos de detritos alimentares, descamação epitelial, leucócitos e biofilmes que se acumulam nas criptas das amígdalas.
Tratamento: Melhoria da higiene oral ou Amigdalectomia em casos de desconforto ou halitose persistente.
Amigdalectomia e Adenoidectomia
Indicações Gerais:
Hipertrofia obstrutiva e suas complicações.
Tonsilites de repetição.
Abscesso periamigdaliano (especialmente se recorrente).
Suspeita de Neoplasia (geralmente unilateral).
Halitose causada por cáseos.
Indicações Específicas na Criança:
Sintomas Obstrutivos: Roncos, sono agitado, despertares noturnos, sialorreia noturna, sonolência ou hiperatividade diurna, respiração bucal.
Desenvolvimento: Dentes protrusos, alterações no formato dos ossos da face (fácies adenoidiana), dificuldade em ganhar peso.
Sintomas Infecciosos: Amigdalites de repetição, resfriados constantes.
Sintomas Auditivos: Otites de repetição, perda auditiva por otites, atraso na fala ou troca de sílabas.
Complicações Cirúrgicas:
Mortalidade: Incidência de .
Intraoperatório: Hemorragia, arritmia, aspiração broncopulmonar.
Pós-operatório Imediato: Hemorragia, obstrução de vias aéreas superiores, edema pulmonar, insuficiência velofaríngea.
Pós-operatório Tardio: Alterações na qualidade da voz, insuficiência velofaríngea persistente.
Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) e Ronco
Citação Artística: Menção à obra "O Sono" de Salvador Dalí.
Ronco: Ruído provocado pela vibração dos tecidos da orofaringe. Nota-se que pacientes traqueostomizados não roncam, pois o fluxo aéreo não passa pela via aérea superior.
Tipos de Roncador:
Ronco Primário: Sem apneia associada; pode ser um problema social se atrapalhar terceiros, mas não necessariamente uma doença.
Roncador com Apneia/Hipopneia Significativa: Requer tratamento clínico.
SAOS (Definição e Impacto):
Descrita em por Cristian Guilleminault.
Atinge cerca de da população, com alto índice de subdiagnóstico.
Fisiopatologia: A queda da saturação de oxigênio () durante a apneia ativa barorreflexos, gerando descarga adrenérgica simpática. Isso causa picos de taquicardia e hipertensão.
Consequências a Longo Prazo: Doença coronariana, Acidente Vascular Encefálico (AVE), dislipidemia, diabetes melito tipo II (devido à resistência insulínica) e inflamação sistêmica.
Diagnóstico e Avaliação da SAOS
Avaliação Clínica: História, exame físico otorrinolaringológico, nasofibroscopia flexível e TC de seios da face.
Escala de Sonolência de Epworth (1991, Dr. John W. Murray):
Quantifica a chance de cochilar em situações (0: nenhuma, 1: pequena, 2: moderada, 3: alta):
Sentado e lendo.
Vendo TV.
Sentado em local público sem atividade.
Passageiro de transporte por uma hora.
Deitado para descansar à tarde.
Sentado e conversando.
Sentado calmamente após almoço sem álcool.
No carro, parado no trânsito por alguns minutos.
Pontuação: Máximo de ; valores acima de indicam anormalidade.
Polissonografia (PSG): Exame padrão-ouro.
Parâmetros: EEG (Eletroencefalograma), EOG (Eletrooculograma), EMG (Eletromiografia), ECG (Eletrocardiograma), fluxo aéreo, esforço respiratório e oximetria de pulso.
Tipos de PSG: Variam de I a IV conforme o número de canais e presença de técnico.
Caracterização do Evento: Apneia (parada de fluxo > 10\,seg) ou Hipopneia (queda de do fluxo com dessaturação de ).
IAH (Índice de Apneia/Hipopneia): Normal até eventos por hora.
Tratamento da SAOS
Tratamento Conservador: Higiene do sono, decúbito lateral, evitar álcool e sedativos, perda de peso. Uma redução de no peso corporal está associada a uma diminuição de no IAH.
Dispositivos Intraorais: Modificam o espaço retrolingual ou retropalatal.
CPAP (Pressão Aérea Positiva Contínua): Uso de máscara facial que mantém a via aérea aberta com ar comprimido. Indicado para apneia moderada a grave.
Tratamento Cirúrgico:
Cirurgia nasal (para melhorar o conforto e fluxo, embora não reduza drasticamente a apneia isoladamente).
Uvulopalatofaringoplastia (UPFP).
Avanços maxilomandibulares.
Teste do Vasoconstritor: Se o ronco melhora com vasoconstritor nasal ( gotas antes de dormir por dias), a obstrução nasal é um fator importante a ser operado.
Classificação de Friedman: Utilizada para prever o sucesso da cirurgia (UPFP), baseada no tamanho da tonsila (Brodsky) e na relação entre a língua e o palato, além do IMC (insucesso provável se IMC > 40).