Capítulo 5: Fluxo Invíscido ao Redor do Casco, Geração de Ondas e Resistência de Ondas
Introdução à Resistência de Ondas e Viscosa
No estudo da hidrodinâmica de navios, a decomposição da resistência total em resistência de ondas e resistência viscosa é a abordagem mais diretamente relacionada aos fenômenos físicos individuais.
Embora esses fenômenos ocorram simultaneamente com diversas interações físicas (tornando a separação artificial em teoria), a distinção é extremamente útil na prática e está fundamentada em dois princípios consolidados:
Ensaios em Modelos: Devido à impossibilidade de igualar simultaneamente o número de Reynolds () e o número de Froude () entre o modelo e o navio real, os testes são realizados mantendo o idêntico. Isso garante que o padrão de ondas seja geometricamente similar. A geração de ondas mostra-se insensível a efeitos viscosos, mesmo com diferenças de da ordem de 100 vezes.
Teoria da Camada Limite: Em altos números de Reynolds, os efeitos viscosos confinam-se a uma camada limite fina e a uma esteira estreita na popa. Segundo a teoria da camada limite fina, o campo de pressão dentro da camada é igual ao campo logo fora dela, e a camada limite não afeta a distribuição de pressão em uma primeira aproximação.
A resistência total () é frequentemente aproximada pela soma: Esta fórmula exclui o efeito viscoso na resistência de ondas e o efeito das ondas na resistência viscosa.
Nesta análise, o fenômeno de geração de ondas é tratado como um fenômeno invíscido (sem viscosidade).
Escoamento Invíscido ao Redor de um Corpo
O escoamento invíscido ao redor de um corpo submerso (sem superfície livre) fornece insights fundamentais para entender a resistência.
Equações Governantes:
O escoamento é descrito pelas equações de Euler, que resultam da remoção dos termos viscosos das equações de Navier-Stokes, mantendo o balanço entre termos convectivos e gradientes de pressão.
Irrotacionalidade: Como o escoamento a montante é uniforme e invíscido, a vorticidade (o rotacional do vetor velocidade) permanece zero em todo o campo (), conforme o teorema de Kelvin.
Potencial de Velocidade: Para fluxos irrotacionais, introduz-se uma função escalar tal que . Isso garante que o fluxo seja irrotacional, pois o rotacional de um gradiente é sempre zero.
Simplificações do Escoamento de Potencial:
As equações de Navier-Stokes e de continuidade são substituídas pela Equação de Bernoulli (derivada de Euler) e pela Equação de Laplace (derivada da continuidade).
Equação de Bernoulli: Em escoamento permanente, o gradiente total é constante ao longo de uma linha de corrente. Como todas as linhas de corrente origem em um campo uniforme upstream (), a constante é a mesma para todo o campo:
Equação de Laplace: Para fluxos incompressíveis:
A Equação de Laplace é linear e homogênea, permitindo a superposição de soluções, o que facilita o estudo de ondas lineares.
Escoamento ao Redor de Corpos 2D e 3D
Corpo Bidimensional (2D):
Ao se aproximar de um corpo, as linhas de corrente curvam-se. Existe uma relação direta entre a curvatura da linha de corrente e o gradiente de pressão normal a ela:
A pressão aumenta na direção oposta ao centro da curvatura.
No bico (proa) e no espelho (popa), a curvatura é para longe do corpo, aumentando a pressão. Nos ombros (ombro de vante e ombro de ré), a curvatura é convexa (em direção ao corpo), reduzindo a pressão.
Em um ponto de estagnação (onde a velocidade cai a zero), a pressão atinge seu valor máximo (pressão de estagnação):
O coeficiente de pressão () é definido como:
Nos pontos de estagnação, .
Corpo Tridimensional (3D) - Navio KVLCC2:
Em navios reais como o petroleiro KVLCC2, as linhas de corrente se curvam tanto em planos normais à superfície quanto paralelos a ela.
A distribuição de pressão mostra alta pressão na proa e na popa e baixas pressões nos ombros (especialmente no ombro de vante, que é mais acentuado) e na região do bojo (bilge).
Paradoxo de d'Alembert: Em um fluido infinito sem viscosidade e sem superfície livre, a resultante longitudinal da pressão integrada sobre um corpo fechado é exatamente zero, ou seja, não há resistência.
Ondas de Superfície Livre
Linearização e Condição de Kelvin:
Para permitir a superposição, as condições de contorno de superfície livre devem ser linearizadas assumindo pequenas amplitudes de onda (declividade da onda ).
A Condição de Kelvin para escoamento não permanente é aplicada em :
Propriedades das Ondas Senoidais:
Relação de Dispersão: A velocidade de propagação () depende do comprimento de onda (): ou
Diferente de ondas sonoras, as ondas de água são dispersivas: componentes de comprimentos diferentes viajam a velocidades diferentes.
Distribuição Vertical: A perturbação decai exponencialmente com a profundidade conforme , onde . A uma profundidade de meia onda (), a perturbação cai para apenas 4% do valor da superfície.
Campo de Velocidade: As partículas de água descrevem trajetórias circulares com raio proporcional a . A velocidade média do fluido é zero na teoria linear.
Velocidade de Grupo (): A energia das ondas não viaja na mesma velocidade que as cristas (). Em águas profundas, a velocidade de grupo é exatamente metade da velocidade de fase:
Isso explica por que, ao atirar uma pedra em um lago, as ondas individuais surgem na borda interna do grupo e desaparecem na borda externa.
Padrões de Ondas de Navios e a Cunha de Kelvin
Ondas em 2D: Atrás de um objeto movendo-se a uma velocidade , as ondas devem ser estacionárias em relação ao objeto, portanto e . A energia perdida como radiação de ondas resulta na resistência de ondas..
Ondas em 3D: O navio gera ondas em várias direções , onde o ângulo é medido em relação à trajetória do navio.
A velocidade de fase efetiva é .
O comprimento de onda é .
Ondas com pequeno são chamadas de transversais; com grande (limitado geralmente a 60-70 graus), são chamadas de divergentes.
Cunha de Kelvin:
Devido à velocidade de grupo (), a energia das ondas geradas na proa fica para trás da crista da onda.
Toda a energia das ondas está contida em um setor Bound por raios saindo da proa.
O semi-ângulo máximo desse setor (Cunha de Kelvin) é calculado por cálculo diferencial como , resultando em .
O limite do setor ocorre quando , ou seja, .
Em grandes distâncias, a amplitude das ondas transversais e divergentes decai conforme , mas as ondas na borda da cunha () decaem mais lentamente, conforme , tendendo a dominar o sistema visualmente no campo distante.
Interferência e Resistência de Ondas
Componentes do Sistema de Ondas do Navio (Wigley, 1931):
Perturbação Local (Onda de Bernoulli): Picos positivos na proa/popa e negativos nos ombros; não irradia energia no campo distante.
Sistema da Proa: Inicia com uma crista.
Sistema do Ombro de Vante: Inicia com um cavado.
Sistema do Ombro de Ré: Inicia com um cavado.
Sistema da Popa: Inicia com uma crista.
Humps e Hollows (Saliências e Vales):
Ocorrem devido à interferência construtiva (cristas coincidindo) ou destrutiva (crista com cavado) entre os sistemas.
A interferência depende do Número de Froude (). Quando o navio corre em velocidade favorável (hollow), a resistência é minimizada.
Método Z: Uma forma empírica de estimar humps focando no sistema da proa e do ombro de ré. A distância de geração de ondas . Máximos de resistência ocorrem quando .
Comportamento por Faixa de Fn:
F_n < 0.10: Resistência de ondas quase insignificante.
: Início da elevação da onda de proa e depressão do ombro; comum em VLCCs.
: Faixa típica de navios de contêineres e balsas de passageiros; a resistência de ondas torna-se importante.
: Ponto onde a interferência entre proa e popa é crítica; navios precisam ser mais esbeltos.
: O comprimento da onda transversal se torna igual ao comprimento do navio.
: Ocorre o Hump Principal da resistência. O navio "sobe na própria onda". Apenas navios com espelho (transom) plano conseguem ultrapassar esse ponto.
F_n > 0.50: Faixa de semi-planeio; a sustentação dinâmica começa a elevar o navio.
: Faixa de planeio total; o padrão de ondas reduz-se a um V estreito.
Quebra de Ondas e Efeitos Viscosos
Tipos de Quebra de Ondas:
Plunging (Mergulhante): A crista se torna íngreme e forma um jato que cai livremente para frente.
Spilling (Deslizante): Uma mancha de água aerada que "desliza" pela face frontal da onda.
Vórtice em Colar (Necklace Vortex): A quebra da onda de proa converte energia de onda em energia turbulenta e cria um par de lóbulos de esteira adicionais, podendo representar até 15% da resistência total em formas de cascos cheios (Baba, 1969).
Respingos (Spray): Em altas velocidades, uma folha fina de água pode subir pelo casco. Trilhos de spray (spray rails) são usados para defletir essa água e reduzir o arrasto.
Efeitos Viscosos na Popa: A camada limite e a esteira alteram o campo de pressão na popa, geralmente reduzindo o sistema de ondas de popa. Esse efeito é mais pronunciado em modelos de pequena escala devido à camada limite proporcionalmente mais grossa.
Efeitos de Águas Rasas e Canais
Alteração nas Propriedades das Ondas:
A presença do fundo muda o potencial para a forma .
Relação de Dispersão em Águas Rasas:
Existe um limite superior para a velocidade de propagação: .
Regimes de Velocidade em Águas Rasas:
Subcrítico (F_{n_h} < 1): As ondas viajam mais devagar que . O ângulo da cunha de Kelvin aumenta à medida que se aproxima de 1.
Crítico (): A velocidade do navio iguala . A energia das ondas não fica para trás (velocidade de grupo = velocidade de fase), causando um acúmulo massivo de água à frente do navio e um aumento drástico na resistência.
Supercrítico (F_{n_h} > 1): O navio viaja mais rápido que a velocidade máxima da onda. Ondas transversais não podem existir. O padrão de ondas torna-se um V estreito definido por .
Estimativa de Resistência (Método de Schlichting):
Baseia-se na ideia de que a resistência de ondas em águas rasas é igual à de águas profundas a uma velocidade reduzida, onde os comprimentos de onda coincidem.
Usa o parâmetro , onde é a área da seção mestra.
Efeitos de Canal (Restrição Lateral):
Introduz-se o conceito de Bloqueio (): razão entre a área da seção mestra e a seção do canal.
Raio Hidráulico (): . Usado para corrigir a resistência viscosa aumentada pela proximidade das paredes.
Teoria de Kreitner (1934): Descreve o excesso de velocidade (overspeed) da água passando pelo navio no canal. Existe uma região inacessível ao redor de onde não há solução de fluxo permanente; o fluxo torna-se instável e forma ondas de translação que se movem à frente do navio.
Wave Wash (Nuisance de Ondas)
O sistema de ondas gerado por embarcações rápidas (ferries) pode causar erosão de margens e perigo a banhistas.
Balsas rápidas produzem ondas com períodos muito longos (7 a 10 segundos), aos quais embarcações ancoradas respondem mais fortemente.
Efeito de Shoaling: À medida que essas ondas longas se aproximam da costa, sua altura aumenta drasticamente, muitas vezes resultando em quebras mergulhantes (plunging) perigosas.
No regime supercrítico, os períodos de onda aparentes no campo distante podem chegar a 20-40 segundos a 3 km de distância.