Mensuração de Atitudes
Definição e Natureza das Atitudes
No âmbito da Psicologia Social I, as atitudes são compreendidas como um constructo hipotético fundamental para entender a interação humana. Segundo Eagly e Chaiken (), uma atitude é uma tendência psicológica que se expressa através da avaliação de uma entidade específica, manifestando-se de forma favorável ou desfavorável. Outras definições, como as propostas por Petty, Cacioppo e Schumann () e Petty e Wegener (), descrevem a atitude como uma avaliação geral e relativamente estável de um alvo particular. Este alvo, designado como objeto atitudinal, pode ser uma pessoa (incluindo o próprio indivíduo), um objeto físico, assuntos sociais ou ideias abstratas.
É crucial notar que a atitude não é um fenômeno diretamente observável. Trata-se de uma variável latente explicativa que serve de mediadora na relação entre a situação ambiental em que os indivíduos se encontram e o comportamento subsequente que eles exibem. Por ser uma tendência interna, a sua existência é inferida a partir de respostas manifestas, sejam elas verbais ou comportamentais.
Tipologia e Esquematização das Medidas de Atitude
A mensuração de atitudes divide-se em duas categorias principais: as medidas explícitas e as medidas implícitas. As medidas explícitas, também conhecidas como medidas de auto-relato, baseiam-se predominantemente em técnicas de papel e lápis, traduzidas na forma de escalas de atitudes. Nestas técnicas, o indivíduo é solicitado a reportar conscientemente o seu posicionamento.
Por outro lado, as medidas implícitas procuram aceder a atitudes que podem não ser conscientemente reconhecidas ou que o indivíduo possa preferir ocultar. Estas dividem-se em três subgrupos: medidas psicofisiológicas ou corporais (que monitorizam reações biológicas), medidas comportamentais (observação de ações em contextos específicos) e medidas cognitivas (que avaliam tempos de resposta e associações mentais automáticas).
Princípios e Desafios das Escalas de Atitudes
A utilização de escalas de atitudes baseia-se em dois princípios fundamentais. O primeiro afirma que é perfeitamente possível medir atitudes através da análise das crenças, opiniões e avaliações que os indivíduos possuem sobre um determinado objeto. O segundo princípio estabelece que a auto-descrição do posicionamento individual é a forma mais direta e eficaz de aceder a esses conteúdos cognitivos.
Contudo, a aplicação destas escalas enfrenta diversos desafios metodológicos que podem comprometer a validade dos dados. Entre os principais problemas destacam-se a questão da sinceridade da resposta versus a auto-monitorização, onde o respondente pode ser influenciado pela presença do investigador ou pela desejabilidade social (o desejo de parecer favorável aos olhos dos outros). Outras dificuldades incluem a relevância real da atitude para o indivíduo, a tendência para escolher o ponto médio da escala e o efeito da ordem das questões, que pode enviesar as respostas subsequentes.
Evolução Cronológica da Mensuração de Atitudes
A história da psicometria aplicada às atitudes é marcada por marcos temporais significativos que introduziram diferentes metodologias de medição:
- : Thurstone apresenta os primeiros contributos para a medição formal.
- : Rensis Likert introduz a sua técnica de medição baseada em somatórios.
- : Guttman desenvolve o modelo de escalonamento cumulativo.
- : Osgood e colaboradores propõem o Diferencial Semântico, focado no significado conotativo dos objetos.
A Escala de Likert (1932): Fundamentos e Construção
A técnica desenvolvida por Rensis Likert (), detalhada na obra A Technique for the Measurement of Attitudes (), baseia-se num modelo de medição psicométrico cujo foco recai sobre as respostas dos indivíduos. Ao contrário de outros métodos da época, a Escala de Likert foca-se na intensidade da concordância ou discordância.
O processo de construção de uma Escala de Likert é rigoroso e segue seis etapas fundamentais, utilizando as chamadas "frases radicais" para eliciar o posicionamento do sujeito.
Etapas Detalhadas de Construção da Escala de Likert
Etapa 1: Elaboração das afirmações. O investigador constitui um conjunto alargado de frases que traduzam crenças, reações afetivas ou comportamentos relacionados com o objeto atitudinal. Estas frases devem manifestar uma posição claramente favorável ou desfavorável. As características essenciais das afirmações incluem:
- Não remeter para factos, para que sejam diferenciadoras de opiniões.
- Não conter duas ou mais vertentes (devem avaliar apenas um conceito por frase).
- Serem curtas, claras, com vocabulário simples, sem duplas negações e não ambíguas.
- Serem radicais, eliminando posições neutras ou intermédias na sua formulação.
- Devem ser passíveis de avaliação por grau de concordância.
- Deve haver um equilíbrio entre o número de frases favoráveis e desfavoráveis, apresentadas de forma aleatória.
Etapa 2: Pré-teste. Aplica-se a bateria inicial de itens a uma amostra representativa da população-alvo. Os sujeitos manifestam o seu grau de concordância numa escala de pontos. Um exemplo clássico seria a afirmação: "Os males provocados pela construção de uma central nuclear no nosso país não compensam os seus eventuais benefícios", com opções variando entre "Discordo em absoluto" até "Concordo em absoluto".
Etapa 3: Cotação das respostas. Atribui-se um valor numérico a cada uma das alternativas. A consistência é fundamental: para frases favoráveis, atribui-se a "Concordo em absoluto" e a "Discordo em absoluto". Para frases desfavoráveis, aplica-se a cotação inversa: "Concordo em absoluto" recebe e "Discordo em absoluto" recebe .
Etapa 4: Verificação geral e seleção final. Nesta fase, avalia-se se os valores numéricos foram bem atribuídos, a sensibilidade dos itens (capacidade de diferenciação), a consistência interna e a fiabilidade através dos seguintes procedimentos:
- Cálculo do coeficiente de correlação de cada afirmação com a bateria total de itens. Se a correlação for negativa, o valor dos extremos deve ser invertido. Se for próxima de zero, a afirmação é irrelevante ou ambígua e deve ser eliminada.
- Medidas de dispersão e indicadores de distribuição: eliminam-se itens sem variação ou que não se assemelhem a uma distribuição normal.
- Cálculo do Alfa de Cronbach () para aferir a robustez da escala.
Etapa 5 e 6: Aplicação e Cálculo Individual. Após a seleção da versão final, a escala é aplicada aos sujeitos. O valor individual da atitude é obtido somando-se os valores numéricos atribuídos a todos os itens da escala.
Vantagens e Considerações Técnicas
A Escala de Likert destaca-se pela sua construção económica e pela rapidez na aplicação. No entanto, é necessário distinguir entre uma "Escala de Likert" (que segue todos os passos psicométricos de construção e validação) e uma "Escala tipo Likert" (que utiliza apenas o formato de resposta de ou mais pontos sem necessariamente passar pelo processo de validação de itens de Likert). É ainda importante considerar a distinção estatística entre escalas intervalares e ordinais ao analisar os dados produzidos.
Exemplos Práticos de Itens Atitudinais
Escala de Atitudes face à Estatística (Martins, 2015): Esta escala utiliza um sistema de (Discordo totalmente) a (Concordo totalmente). Exemplos de itens favoráveis: "Eu gosto de Estatística" e "Arranjar um emprego será mais fácil tendo competências em Estatística". Exemplos de itens desfavoráveis (com cotação inversa): "A Estatística não serve para nada" e "A Estatística assusta-me". Pontuações médias superiores a indicam atitudes favoráveis.
Escala de Atitudes face às Aulas Online (Rodrigues & Mendes, 2005):
- Favorável (F): "Gostei da aprendizagem online efetuada na disciplina de T.E.".
- Desfavorável (D): "Foi mais difícil aprender online do que na tradicional aula presencial".
- Desfavorável (D): "Aprendo mais com as aulas tradicionais".
Escala de Atitudes face ao Envelhecimento (AAQ-12 P, Cunha, 2018): Dividida em dimensões como "Mudança Física" (e.g., "Não me sinto velho/velha"), "Perda Psicossocial" (e.g., "A velhice é um período da vida deprimente" - item invertido) e "Crescimento Psicológico" (e.g., "É um privilégio chegar a uma idade avançada").