Mensuração de Atitudes

Definição e Natureza das Atitudes

No âmbito da Psicologia Social I, as atitudes são compreendidas como um constructo hipotético fundamental para entender a interação humana. Segundo Eagly e Chaiken (1993,p.11993, p. 1), uma atitude é uma tendência psicológica que se expressa através da avaliação de uma entidade específica, manifestando-se de forma favorável ou desfavorável. Outras definições, como as propostas por Petty, Cacioppo e Schumann (19831983) e Petty e Wegener (19981998), descrevem a atitude como uma avaliação geral e relativamente estável de um alvo particular. Este alvo, designado como objeto atitudinal, pode ser uma pessoa (incluindo o próprio indivíduo), um objeto físico, assuntos sociais ou ideias abstratas.

É crucial notar que a atitude não é um fenômeno diretamente observável. Trata-se de uma variável latente explicativa que serve de mediadora na relação entre a situação ambiental em que os indivíduos se encontram e o comportamento subsequente que eles exibem. Por ser uma tendência interna, a sua existência é inferida a partir de respostas manifestas, sejam elas verbais ou comportamentais.

Tipologia e Esquematização das Medidas de Atitude

A mensuração de atitudes divide-se em duas categorias principais: as medidas explícitas e as medidas implícitas. As medidas explícitas, também conhecidas como medidas de auto-relato, baseiam-se predominantemente em técnicas de papel e lápis, traduzidas na forma de escalas de atitudes. Nestas técnicas, o indivíduo é solicitado a reportar conscientemente o seu posicionamento.

Por outro lado, as medidas implícitas procuram aceder a atitudes que podem não ser conscientemente reconhecidas ou que o indivíduo possa preferir ocultar. Estas dividem-se em três subgrupos: medidas psicofisiológicas ou corporais (que monitorizam reações biológicas), medidas comportamentais (observação de ações em contextos específicos) e medidas cognitivas (que avaliam tempos de resposta e associações mentais automáticas).

Princípios e Desafios das Escalas de Atitudes

A utilização de escalas de atitudes baseia-se em dois princípios fundamentais. O primeiro afirma que é perfeitamente possível medir atitudes através da análise das crenças, opiniões e avaliações que os indivíduos possuem sobre um determinado objeto. O segundo princípio estabelece que a auto-descrição do posicionamento individual é a forma mais direta e eficaz de aceder a esses conteúdos cognitivos.

Contudo, a aplicação destas escalas enfrenta diversos desafios metodológicos que podem comprometer a validade dos dados. Entre os principais problemas destacam-se a questão da sinceridade da resposta versus a auto-monitorização, onde o respondente pode ser influenciado pela presença do investigador ou pela desejabilidade social (o desejo de parecer favorável aos olhos dos outros). Outras dificuldades incluem a relevância real da atitude para o indivíduo, a tendência para escolher o ponto médio da escala e o efeito da ordem das questões, que pode enviesar as respostas subsequentes.

Evolução Cronológica da Mensuração de Atitudes

A história da psicometria aplicada às atitudes é marcada por marcos temporais significativos que introduziram diferentes metodologias de medição:

  1. 19281928: Thurstone apresenta os primeiros contributos para a medição formal.
  2. 19321932: Rensis Likert introduz a sua técnica de medição baseada em somatórios.
  3. 19441944: Guttman desenvolve o modelo de escalonamento cumulativo.
  4. 19571957: Osgood e colaboradores propõem o Diferencial Semântico, focado no significado conotativo dos objetos.

A Escala de Likert (1932): Fundamentos e Construção

A técnica desenvolvida por Rensis Likert (190319811903-1981), detalhada na obra A Technique for the Measurement of Attitudes (19321932), baseia-se num modelo de medição psicométrico cujo foco recai sobre as respostas dos indivíduos. Ao contrário de outros métodos da época, a Escala de Likert foca-se na intensidade da concordância ou discordância.

O processo de construção de uma Escala de Likert é rigoroso e segue seis etapas fundamentais, utilizando as chamadas "frases radicais" para eliciar o posicionamento do sujeito.

Etapas Detalhadas de Construção da Escala de Likert

Etapa 1: Elaboração das afirmações. O investigador constitui um conjunto alargado de frases que traduzam crenças, reações afetivas ou comportamentos relacionados com o objeto atitudinal. Estas frases devem manifestar uma posição claramente favorável ou desfavorável. As características essenciais das afirmações incluem:

  • Não remeter para factos, para que sejam diferenciadoras de opiniões.
  • Não conter duas ou mais vertentes (devem avaliar apenas um conceito por frase).
  • Serem curtas, claras, com vocabulário simples, sem duplas negações e não ambíguas.
  • Serem radicais, eliminando posições neutras ou intermédias na sua formulação.
  • Devem ser passíveis de avaliação por grau de concordância.
  • Deve haver um equilíbrio entre o número de frases favoráveis e desfavoráveis, apresentadas de forma aleatória.

Etapa 2: Pré-teste. Aplica-se a bateria inicial de itens a uma amostra representativa da população-alvo. Os sujeitos manifestam o seu grau de concordância numa escala de 55 pontos. Um exemplo clássico seria a afirmação: "Os males provocados pela construção de uma central nuclear no nosso país não compensam os seus eventuais benefícios", com opções variando entre "Discordo em absoluto" até "Concordo em absoluto".

Etapa 3: Cotação das respostas. Atribui-se um valor numérico a cada uma das 55 alternativas. A consistência é fundamental: para frases favoráveis, atribui-se 55 a "Concordo em absoluto" e 11 a "Discordo em absoluto". Para frases desfavoráveis, aplica-se a cotação inversa: "Concordo em absoluto" recebe 11 e "Discordo em absoluto" recebe 55.

Etapa 4: Verificação geral e seleção final. Nesta fase, avalia-se se os valores numéricos foram bem atribuídos, a sensibilidade dos itens (capacidade de diferenciação), a consistência interna e a fiabilidade através dos seguintes procedimentos:

  • Cálculo do coeficiente de correlação de cada afirmação com a bateria total de itens. Se a correlação for negativa, o valor dos extremos deve ser invertido. Se for próxima de zero, a afirmação é irrelevante ou ambígua e deve ser eliminada.
  • Medidas de dispersão e indicadores de distribuição: eliminam-se itens sem variação ou que não se assemelhem a uma distribuição normal.
  • Cálculo do Alfa de Cronbach (α\alpha) para aferir a robustez da escala.

Etapa 5 e 6: Aplicação e Cálculo Individual. Após a seleção da versão final, a escala é aplicada aos sujeitos. O valor individual da atitude é obtido somando-se os valores numéricos atribuídos a todos os itens da escala.

Vantagens e Considerações Técnicas

A Escala de Likert destaca-se pela sua construção económica e pela rapidez na aplicação. No entanto, é necessário distinguir entre uma "Escala de Likert" (que segue todos os passos psicométricos de construção e validação) e uma "Escala tipo Likert" (que utiliza apenas o formato de resposta de 55 ou mais pontos sem necessariamente passar pelo processo de validação de itens de Likert). É ainda importante considerar a distinção estatística entre escalas intervalares e ordinais ao analisar os dados produzidos.

Exemplos Práticos de Itens Atitudinais

Escala de Atitudes face à Estatística (Martins, 2015): Esta escala utiliza um sistema de 11 (Discordo totalmente) a 55 (Concordo totalmente). Exemplos de itens favoráveis: "Eu gosto de Estatística" e "Arranjar um emprego será mais fácil tendo competências em Estatística". Exemplos de itens desfavoráveis (com cotação inversa): "A Estatística não serve para nada" e "A Estatística assusta-me". Pontuações médias superiores a 44 indicam atitudes favoráveis.

Escala de Atitudes face às Aulas Online (Rodrigues & Mendes, 2005):

  • Favorável (F): "Gostei da aprendizagem online efetuada na disciplina de T.E.".
  • Desfavorável (D): "Foi mais difícil aprender online do que na tradicional aula presencial".
  • Desfavorável (D): "Aprendo mais com as aulas tradicionais".

Escala de Atitudes face ao Envelhecimento (AAQ-12 P, Cunha, 2018): Dividida em dimensões como "Mudança Física" (e.g., "Não me sinto velho/velha"), "Perda Psicossocial" (e.g., "A velhice é um período da vida deprimente" - item invertido) e "Crescimento Psicológico" (e.g., "É um privilégio chegar a uma idade avançada").