Resumo Detalhado sobre Ação de Antibióticos e Estrutura Bacteriana
Ação Bacteriostática e Bactericida
Em condições ideais, as bactérias dividem-se a cada 15 minutos, resultando em divisões em 24 horas. No entanto, em infeções clínicas, a multiplicação é mais lenta devido ao acúmulo de metabólitos, exaustão de nutrientes como o , e a intervenção do sistema imunitário.
- Ação Bactericida: Antibacterianos que matam as células bacterianas.
- Ação Bacteriostática: Antibacterianos que inibem a multiplicação bacteriana, permitindo que o organismo remova as bactérias remanescentes.
Concentrações Inibitórias e Bactericidas Mínimas
A sensibilidade de uma estirpe bacteriana a um antibacteriano é determinada in vitro, expondo-as a concentrações crescentes do fármaco.
- Concentração Inibitória Mínima (CIM): A menor concentração que impede o crescimento bacteriano.
- Antibiograma: Teste de sensibilidade bacteriana a vários antibacterianos numa placa de cultura.
- Concentração Bactericida Mínima (CBM): A menor concentração que elimina 99.9% de uma população bacteriana após 18 horas de contacto.
- Eficácia Bactericida: Um antibiótico bactericida é mais eficaz quanto maior a razão entre as CIM e as CBM.
- Efeito Pós-bacteriano (ou Pós-antibiótico): Supressão da multiplicação bacteriana que continua após a remoção do antibacteriano.
Mecanismos de Ação
- O conhecimento do mecanismo de ação de um antibacteriano é crucial para entender suas potencialidades, toxicidade, razões de inocuidade e o problema das resistências (ex., MDR - Multidrug-resistant).
- Permite compreender melhor o problema das resistências (ex., MDR).
- Auxilia no estudo da associação de antibacterianos e seus efeitos sinérgicos.
Classificação dos Mecanismos de Ação
- Inibição da síntese da parede bacteriana.
- Inibição da síntese proteica por ação sobre os ribossomas.
- Inibição de diversas enzimas do metabolismo citoplasmático.
- Alteração da síntese dos ácidos nucleicos.
- Modificação da permeabilidade da membrana citoplasmática.
- Outros.
É essencial conhecer o mecanismo de ação exato de cada antibacteriano, não apenas a descrição geral.
Estrutura Bacteriana
- Bactérias e microrganismos afins são células procarióticas únicas.
- Apresentam um revestimento externo com uma camada rígida e espessa (50-800 nm), a parede bacteriana (PB).
- A PB dá forma à bactéria e evita a sua rutura em meios hipotónicos.
- A PB é constituída por mureína, um mucopeptídeo formado por cadeias lineares de N-acetil-D-glicosamina e ácido N-acetilmurâmico, ligadas entre si por peptídeos.
Antibacterianos: Exemplos
Inibição da Síntese da Parede Bacteriana
- β-lactâmicos:
- Penicilinas (Ex.: benzilpenicilina, meticilina, amoxicilina, piperacilina, pivmecilinamo).
- Cefalosporinas (Ex.: cefazolina, cefuroxima, cefatriazona, cefepima, ceftarolina fosamilo, cefiderocol).
- Monobactamos (Ex.: aztreonam).
- Carbapenemas (Ex.: imipenema, meropenema, doripenema, ertapenema).
- Glicopeptídeos (Ex.: vancomicina, teicoplanina).
- Outros (Ex.: fosfomicina).
Inibição da Síntese Proteica por Ação sobre os Ribossomas
- Tetraciclinas (Ex.: tetraciclina, clorotetraciclina, minociclina, doxiciclina, eravaciclina).
- Macrólidos (Ex.: eritromicina, claritromicina, azitromicina, roquitamicina, telitromitromicina).
- Estreptograminas (Ex.: quinupristina/dalfopristina).
- Oxazolidinonas (Ex.: linezolido, tedizolida).
- Lincosamidas (Ex.: clindamicina).
- Pleuromutilinas (Ex.: lefamulina).
- Aminoglicosídeos (Ex.: estreptomicina, gentamicina, tobramicina, neomicina).
- Cloranfenicol
Inibição de diversas enzimas do Metabolismo Citoplasmático
- Sulfonamidas (Ex.: sulfametoxazole, sulfisoxazol).
- Pirimetamina.
- Trimetoprima.
Alteração da Síntese dos Ácidos Nucleicos
- Fluoroquinolonas (Ex.: norfloxacina, enoxacina, ofloxacina, enrofloxacina, ciprofloxacina, delafloxacina, levofloxacina, sparfloxacina, clinofloxacina).
- Fidaxomicina.
Modificação da Permeabilidade da Membrana Citoplasmática
- Lipopeptídeos acídicos (Ex.: daptomicina).
- Polimixinas (Ex.: polimixina B, colistina (polimixina E)).
Outros
- Nitroimidazoles (Ex.: metronidazol: ornidazol, secnidazol, tinidazol, nimorazol).
- Derivados nitrofurânicos (Ex.: nitrofurantoína, furazolidona, nifurfolina, nitrofurazona e a nitroxolina).
- Ácido fusídico.
Estrutura Bacteriana (Detalhes Adicionais)
- A estrutura da parede bacteriana é mais complexa, com polímeros adicionais ligados covalentemente à mureína, protegendo contra ataques enzimáticos e servindo de ligação a antigénios e recetores para bacteriófagos.
- A constituição química da PB varia entre bactérias, assim como a arquitetura da PB.
- Bactérias Gram-negativas têm paredes menos espessas e com menos ligações peptídicas do que as Gram-positivas. As Gram-positivas podem ter cerca de 50 camadas moleculares de peptidoglicano.
Bactérias Gram-Negativas e Gram-Positivas
- A membrana plasmática que envolve o citoplasma bacteriano é fina (5-20 nm) e tem pouca resistência mecânica; a PB impede a lise por motivos osmóticos.
- A estrutura geral é semelhante à das células eucarióticas, mas sem colesterol; possui enzimas para transporte ativo, síntese da parede e metabolismo geral, incluindo um sistema de citocromos.
- As bactérias Gram-negativas têm uma membrana externa adicional envolvendo a PB, composta por uma camada lipídica dupla e macromoléculas proteicas.
- A membrana externa é pouco permeável a substâncias lipossolúveis ou hidrofóbicas.
Membrana Externa de Bactérias Gram-Negativas
- A camada lipídica da membrana externa é assimétrica, com um folheto externo composto por lipopolissacarídeos fortemente ligados, impermeáveis a lipofilia.
- Substâncias hidrofílicas atravessam a membrana externa através de canais aquosos abertos nas macromoléculas proteicas (porinas - Omp/Opr).
- O espaço periplasmático, entre a membrana externa e a parede bacteriana, pode acumular enzimas segregadas pela bactéria.
Ribossoma Bacteriano
- O ribossoma bacteriano é composto por duas subunidades (50S e 30S) que se juntam para formar a unidade 70S durante a síntese proteica.
- O ARNm liga-se à subunidade 30S; duas moléculas de ARNt, cada uma com um aminoácido, contactam com o agregado, e a subunidade 50S liga-se ao conjunto (complexo de iniciação).
- O ARNm está ligado à subunidade 30S; o ARNt está colocado na subunidade 50S.
Regiões do Ribossoma
- A fração 50S possui duas regiões, A (acceptor) e P (peptidyl donor), próximas uma da outra.
- Cada região está sobreposta aos codões expostos no ARNm da subunidade 30S.
- As moléculas de ARNt, com os aminoácidos especificados pelos codões, ocupam os seus respetivos locais.
- Ocorre a transpeptidação por meio de uma peptidiltransferase, iniciando a formação da cadeia peptídica.
- Os aminoácidos ligados ficam no ARNt do local A; o ARNt do local P é libertado.
Translocação
- Para o crescimento da cadeia, o ARNt com os aminoácidos deve mover-se para a posição P, permitindo que a posição A se ligue a um novo ARNt com um novo aminoácido.
- Este processo, chamado translocação, envolve o deslizamento do ribossoma sobre o ARNm para alinhar o próximo codão com o local A.
- Aminoglicosídeos, tetraciclinas, macrólidos, clindamicina e cloranfenicol, entre outros, atuam nestes locais.
Metabolismo Citoplasmático (Enzimas)
- Muitas bactérias e alguns protozoários não podem utilizar folatos pré-formados exógenos. Possuem enzimas essenciais para a síntese de folatos, ausentes em humanos.
- A sintetase do diidropteroato catalisa a formação de diidropteroato a partir de diidropterina e PABA.
- A redutase do diidrofolato catalisa a transformação de diidrofolato em tetra-hidrofolato, essencial para a síntese de timidilato, necessário para a formação de ácidos nucleicos e multiplicação celular.
Diferenças entre Células Humanas e Bacterianas
- Células humanas também possuem redutases do diidrofolato, mas diferentes das bacterianas.
- Células humanas captam folatos exógenos, convertendo-os em tetra-hidrofolato pela redutase humana.
- Podem usar folinato exógeno, que se converte diretamente em tetra-hidrofolato sem a redutase do diidrofolato.
Inibição da Síntese da Parede Bacteriana
- Compostos que inibem a síntese da parede bacteriana são bactericidas e atuam apenas em bactérias em crescimento.
Primeira fase (citoplasmática)
- Síntese do precursor, o UDP-N-ácido acetilmurâmico, a partir de N-acetil-D-glicosamina-1-fosfato, UTP e fosfoenolpiruvato.
- Ligação seriada de cinco aminoácidos aminados ao precursor, com D-alanina nas duas últimas posições.
Formação de D-alanina
- A D-alanina provém da L-alanina por ação de uma racemase; a formação do dipeptídeo D-alanilalanina ocorre por intervenção de uma ligase específica.
- Fosfomicina inibe irreversivelmente a transferase que catalisa a condensação do fosfoenolpiruvato ao UDP-N-acetilglicosamina-1-fosfato.
- Cicloserina inibe a racemase e a ligase, impedindo a formação da cadeia pentapeptídica.
Fosfomicina
- Antibiótico de estrutura simples, eficaz contra Haemophilus influenzae, Salmonella, Serratia, Escherichia coli, Proteus mirabilis e cocos Gram-positivos, incluindo estafilococos resistentes à penicilina G.
- Mecanismo de ação: inibe irreversivelmente a transferase que catalisa a condensação do fosfoenolpiruvato ao UDP-N-acetilglicosamina-1-fosfato, impedindo a síntese do ácido UDP-N-acetilmurâmico.
- Uso terapêutico: tratamento de cistite aguda não complicada em mulheres e adolescentes, profilaxia antibiótica perioperatória para biópsia transretal à próstata em homens, e em animais de corte para infeções do trato urinário.
Segunda fase da síntese:
- Transporte, através da membrana, dos elementos básicos da PB: UDP-N-ácido acetilmurâmico-pentapeptídeo e UDP-N-acetilglicosamina.
- Formação do composto intermediário lipídico I (undecaprenilpirofosforil-N-acetilmuramil-pentapeptídeo).
- A estrutura pentapeptídica é colocada na face externa da membrana plasmática.
- Segue-se a formação da unidade constitutiva básica do peptidoglicano e do polímero linear peptideoglicânico (transglicosidases).
- Transporte realiza-se pela ligação pirofosfato entre aquele composto e o undecaprenilfosfato, catalisada por uma translocase.
Inibição do Transporte
- Bacitracina inibe a pirofosfatase, que transforma o undecaprenilpirofosfato em undecaprenilfosfato, inibindo o transporte do UDP-N-ácido acetilmurâmico-pentapeptídeo através da membrana citoplasmática.
- Vancomicina inibe a transglicosidação, impedindo a formação do peptideoglicânico, e liga-se com afinidade ao dipeptídeo D-alanina-D-alanina, impedindo a aproximação das unidades do peptideoglicano.
Última fase da síntese:
- Estabelecimento de ligações cruzadas entre as cadeias lineares e ligações covalentes entre os pentapeptídeos na face externa da membrana citoplasmática (ligações transpeptidásicas).
- Antibióticos β-lactâmicos inibem a D-alanina-carboxipeptidase e a peptideoglicano-transpeptidase, impedindo a última fase da síntese da parede bacteriana.
- Ligam-se a proteínas da membrana citoplasmática das bactérias, as PBP (penicillin-binding proteins), que intervêm no estabelecimento das ligações transpeptidásicas durante a síntese do peptideoglicano; a ligação varia com o antibiótico e com a bactéria em causa.
- Existem PBP de alto e baixo peso molecular.
- Os antibióticos β-lactâmicos fixam-se ao terminal carboxílico das PBP; desta acilação resulta a ação antibacteriana.
- Se a afinidade for alta, a bactéria é sensível; a ligação é reversível.
Penicilinas
- Penicilinas naturais: benzilpenicilina (penicilina G) e a fenoximetilpenicilina (penicilina V)
- Penicilinas resistentes às penicilinases estafilocócicas: isoxazolpenicilinas (flucloxacilina, dicloxacilina) e meticilina
- Penicilinas de largo espectro (aminopenicilinas): amoxicilina, ampicilina, bacampicilina
- Carboxipenicilinas e ureidopenicilinas: carbenicilina, ticarcilina; mezlocilina, azlocilina, piperacilina
- Penicilinas apenas ativas contra bactérias Gram-negativas (amidinopenicilinas): pivmecilinamo
Resistência às Penicilinas
- O uso repetido das penicilinas levou ao aparecimento de microrganismos resistentes, os MRSA (meticilinoresistentes), que possuem resistência a todas as penicilinas e cefalosporinas resistentes à penicilinase.
- Os MRSA têm uma PBP adicional, de elevado peso molecular, com baixa afinidade para os β-lactâmicos. A associação recomendada é vancomicina e rifampicina em situações graves.
Isoxazolpenicilinas
- Representadas pelas isoxazolpenicilinas (dicloxacilina e a flucloxacilina) e pela meticilina.
- Ativas contra estafilococos, incluindo os produtores de β-lactamases.
- Isoxazolpenicilinas podem ser administradas por via oral; meticilina por via intravenosa e intramuscular.
Cefalosporinas
- Semelhantes às penicilinas na estrutura, mecanismo de ação e toxicidade.
- Mais resistentes às β-lactamases, com um espetro de ação mais amplo, mas inativas contra enterococos e Listeria monocytogenes.
- Modificações em C3 afetam as características farmacocinéticas, como a absorção oral e a biotransformação.
- Modificações em C7 afetam o espetro de ação e o grau de resistência às β-lactamases.