História do Rio Grande do Sul: Da Pré-História à Era Vargas

Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro

  • Definição e Estrutura: Os sambaquis são grandes montes de conchas localizados nas proximidades do mar, distribuídos por todo o litoral das regiões Sul e Sudeste do Brasil. São tecnicamente definidos como "os resíduos mais volumosos produzidos por qualquer população pré-histórica brasileira" (SCHMITZ, 2006, p. 21). Eles podem atingir alturas de até 30metros30\,\text{metros}.

  • Funções Multifacetadas: Acredita-se que essas estruturas serviam como:

    • Local de habitação.

    • Depósito de resíduos alimentares.

    • Cemitério: Conforme Gaspar (2004, p. 9), áreas específicas eram dedicadas a rituais funerários, onde eram sepultados homens, mulheres e crianças de diversas idades.

  • Economia e Dieta: Eram construídos em locais estratégicos para acesso diário a água e comida. A base alimentar eram os recursos marinhos (peixes e moluscos), complementada por vegetais e caça.

  • Cultura Material: Existem registros de artefatos de pedra e osso, marcas de estacas e manchas de fogueira. Matérias-primas identificadas:

    • Ossos: Utilizados para anzóis, agulhas, pontas de flecha e adornos.

    • Dentes: Usados para instrumentos e adornos.

    • Conchas: Confeccionavam-se colares; conchas de ostras, por serem resistentes, eram usadas como facas ou raspadores.

  • Cronologia e Distribuição no RS:

    • Os sambaquis mais antigos do Brasil estão no Paraná (4.500a.C.4.500\,\text{a.C.}).

    • No Rio Grande do Sul, datam de aproximadamente 1.500a.C.1.500\,\text{a.C.}.

    • Principais sítios no estado: Itapeva (Torres) e Xangri-lá.

    • Demografia: Estima-se que sítios médios abrigavam de 5050 a 100100 indivíduos, enquanto sítios grandes comportavam até 600600 pessoas ao longo de sucessivas gerações.

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Habitantes Pré-Colombianos: Guaranis

  • Denominações e Origem: Também conhecidos como tapes, arachanes e carijós. Migraram da Amazônia, com a teoria mais aceita situando a origem no atual estado de Rondônia. Chegaram ao território do Rio Grande do Sul por volta do início da Era Cristã via Bacia Platina (rios Paraguai e Paraná).

  • Cosmovisão: A migração era motivada pela busca da "Terra Sem Males", uma espécie de paraíso terrestre.

  • Territorialidade no RS: Ocuparam vales fluviais (bacias do Rio Jacuí e Uruguai) e o litoral norte.

  • Modo de Vida Social e Produtivo:

    • Semicontinentalidade: Eram seminômades, permanecendo entre 22 e 5anos5\,\text{anos} em cada local.

    • Técnica Agrícola: Utilizavam a coivara (queimada do mato para usar cinzas como fertilizante). Cultivavam milho, mandioca, feijão e abóbora.

    • Organização Social: Viviam em aldeias chamadas tekoa, compostas por 33 a 66 casas que abrigavam famílias extensas. As decisões políticas (guerra, paz, migração) eram tomadas por um Grande Conselho formado pelos chefes das casas.

Habitantes Pré-Colombianos: Jês (Kaingangs)

  • Identidade: Denominados anteriormente como coroados ou botocudos, hoje são chamados de Kaingangs ("gente do mato"). Falam línguas da família Jê.

  • Ocupação: Planalto Norte e Campos de Cima da Serra, integrando um grupo maior que se estendia até Minas Gerais. Chegaram ao RS por volta do século IId.C.II\,\text{d.C.}.

  • Adaptação Climática (Casas Subterrâneas): Para manter o calor no inverno, construíam habitações subterrâneas com até 6metros6\,\text{metros} de profundidade e 15metros15\,\text{metros} de largura. O telhado era de galhos e palmeiras, e muitas casas eram conectadas por túneis. As aldeias tinham entre 44 e 66 casas.

  • Dieta: A base era o pinhão (coletado no verão/outono), que era desidratado, transformado em farinha e armazenado em depósitos subterrâneos. Também cultivavam milho e mandioca (coivara) e caçavam pequenos animais.

  • Demografia e Expansão: Aldeias podiam ter entre 300300 e 500500 habitantes. No século XVIIXVII, expandiram-se para o norte/noroeste ocupando espaços deixados após a perseguição de bandeirantes aos guaranis.

Habitantes Pré-Colombianos: Pampeanos

  • Composição: Formados por Charruas e Minuanos. Eram o grupo menos numeroso e ocupavam o Pampa (sul, sudoeste e oeste do RS).

  • Modo de Vida: Totalmente nômades, vivendo de caça, pesca e coleta. Eram exímios caçadores utilizando lanças, flechas, bolas de boleadeira e fundas.

  • Habitação: Viviam em toldos cobertos com esteiras (5 pessoas por toldo). O conjunto chamava-se toldoaria.

  • Impacto Europeu: Incorporaram o cavalo (transporte/caça) e o gado bovino (alimento). Os toldos passaram a ser cobertos com couro animal.

  • Resistência e Extermínio: Recusaram as reduções e o batismo. Sofreram com epidemias (varíola) e a perda de espaço para as estâncias. O Massacre de Salsipuedes (18311831), no Uruguai, marca o fim da preservação do seu modo de vida tradicional.

Situação dos Indígenas Atualmente no Rio Grande do Sul

  • Kaingangs: Historicamente aldeados ou dizimados no final do século XIXXIX para dar lugar a colonos europeus no Alto Uruguai. Hoje enfrentam conflitos violentos por terra (ex: Nonoai), esgotamento do solo e miséria devido ao tamanho reduzido das reservas.

  • Guaranis Mbyá: População concentrada no litoral e região metropolitana. Mantêm o hábito de migrações constantes, o que tensiona processos de demarcação de terras, pois dificulta a comprovação de ligação histórica fixa com áreas específicas.

A Experiência Missioneira (Missões Jesuíticas)

  • Fase 1: Missões do Tape (16261626 - 16411641):

    • Localização: Vales dos rios Uruguai, Ibicuí e Jacuí.

    • População: Cerca de 70.00070.000 pessoas em 1818 reduções.

    • Fim da Fase: Ataques de bandeirantes paulistas em busca de escravos (preferidos por já conhecerem a agricultura e viverem concentrados). Jesuítas fugiram levando o gado para o sul do Jacuí, gerando a Vacaria do Mar.

  • Fase 2: Sete Povos das Missões (16821682 onwards):

    • Retorno à margem esquerda do Rio Uruguai sob administração espanhola.

    • Os Sete Povos (em ordem de fundação):

      1. São Borja (16821682).

      2. São Nicolau (16871687).

      3. São Luiz Gonzaga (16871687).

      4. São Miguel Arcanjo (16871687) - a "capital".

      5. São Lourenço Mártir (16901690).

      6. São João Batista (16971697).

      7. Santo Ângelo Custódio (17061706).

    • Fomento da Pecuária: Criação da Vacaria dos Pinhais nos Campos de Cima da Serra.

Organização e Economia das Reduções

  • Arquitetura: Modelo espanhol de cidade quadriculada. No centro, uma praça para cerimônias. A igreja ficava ao sul. Ao redor, cemitério, cotiguaçu (viúvas), colégio, oficinas e residências.

  • Poder Político: O Cabildo (órgão decisório) era composto pelos caciques (morubixabas).

  • Estrutura de Propriedade:

    • Tupambaé (Terra de Deus): Terras coletivas (estâncias e ervais). Trabalhavam 2dias2\,\text{dias} por semana nela para sustento de padres, doentes e exportação (erva-mate para Buenos Aires).

    • Abambaé (Terra do Homem): Lotes individuais (até 2hectares2\,\text{hectares}) para subsistência das famílias.

Guerra Guaranítica (17541754 - 17561756)

  • Motivo: Tratado de Madrid (17501750) - princípio do uti possidetis. Portugal entregaria a Colônia do Sacramento em troca dos Sete Povos das Missões. Os Guaranis recusaram-se a sair.

  • Conflito: Tropas de Portugal e Espanha uniram-se contra os indígenas. Destaque para o líder Sepé Tiarajú (famoso pela frase "Esta terra tem dono").

  • Desfecho: O Tratado de Madrid foi anulado pelo Tratado de El Pardo (17611761). Muitos indígenas foram transferidos para locais como Gravataí (Aldeia dos Anjos) e Cachoeira do Sul.

  • Identidade Missioneira: O mito de Sepé Tiarajú e a Cruz de Caravaca (Cruz Missioneira) tornaram-se símbolos da resistência e da base cultural do RS.

A Presença Portuguesa e a Colônia do Sacramento

  • Contexto: União Ibérica (15801580 - 16401640) permitiu a infiltração lusa no Rio da Prata para contrabando de prata de Potosí via Buenos Aires.

  • Fundação: Manuel Lobo fundou a Colônia do Sacramento em 16801680, em frente a Buenos Aires, como posto estratégico para obtenção de prata.

  • Consequências: Constantes cercos espanhóis. Para dar suporte logístico, Portugal fundou a vila de Rio Grande (17371737) e mais tarde transferiu a capital de Viamão para Porto Alegre (17721772) para controlar a bacia do Jacuí.

Ocupação e Frentes de Povoamento

  • Frente Terrestre (Espontânea): Descendentes de paulistas vindo do litoral desde o sul no século XVIIIXVIII. Introduziram as primeiras sesmarias no RS (Viamão, 17321732).

  • Frente Marítima (Oficial): Planejada pela Coroa para ampliar domínios. José da Silva Paes fundou o forte Jesus-Maria-José em Rio Grande (17371737) e Rio Pardo (17511751).

  • Imigração Açoriana (17481748 - 17531753):

    • Causa: Superpopulação nas ilhas e busca de terras (1/41/4 de légua ou 272hectares272\,\text{hectares} prometidos pelo Edital de 17471747).

    • Resultado: Cerca de 2.5002.500 pessoas dobraram a população branca do RS. Fundaram Porto Alegre, Taquari, Santo Amaro e Mostardas. Dedicaram-se ao trigo e linho cânhamo.

Ciclos da Pecuária e Escravidão

  1. Criação de Gado: Evoluiu do apresamento de gado solto (vacaria) para as estâncias (latifúndio pastoril militarizado com gado marcado a ferro).

  2. Charqueadas: Surgiram por volta de 17801780 (Pelotas é o centro). Transformavam gado em carne salgada para alimentar escravos no Sudeste. Paradoxalmente, era uma produção feita por escravizados para escravizados.

  3. Escravidão No RS: Presente em todas as áreas (urbanas, rurais e até nas colônias imigrantes). Em Viamão (17511751), 42%42\% da população era escravizada. O tráfico era majoritariamente via Rio de Janeiro, com entrada de muitos jovens (1010 a 14anos14\,\text{anos}).

Guerra dos Farrapos (18351835 - 18451845)

  • Causas: Altos impostos sobre o charque (15%15\% contra 4%4\% do uruguaio), centralismo imperial e desejo de autonomia das elites locais.

  • Eventos Chave:

    • Proclamação da República Rio-Grandense (11/09/183611/09/1836 - Batalha do Seival).

    • Proclamação da República Juliana (18391839 - SC).

    • Lanceiros Negros: Escravos que combatiam em troca de liberdade. Foram massacrados (suposta traição) em Porongos (14/11/184414/11/1844).

  • Paz de Ponche Verde (01/03/184501/03/1845): O Império assumiu as dívidas da república rebelde, integrou oficiais farrapos ao exército nacional e taxou o charque platino em 25%25\%.

Imigração Europeia no Século XIX

  • Alemães (A partir de 18241824): Ocuparam o Vale dos Sinos (São Leopoldo). Recebiam lotes de 77hectares77\,\text{hectares}. Eram majoritariamente luteranos e focaram na agricultura e pequenas indústrias (couro, cerveja, calçados).

  • Italianos (A partir de 18751875): Ocuparam a Serra (Garibaldi, Bento Gonçalves, Caxias). Provenientes do Vêneto, focaram na vitivinicultura e policultura. Caxias tornou-se a "Pérola das Colônias" e polo metalúrgico posterior.

Política: Da Realidade Farroupilha à Era Vargas

  • Revolução Federalista (18931893 - 18951895): Conflito entre Pica-paus (Positivistas/PRR - Júlio de Castilhos) e Maragatos (Federalistas - Silveira Martins). Marcada pela prática da degola e resultou na hegemonia do PRR.

  • Era Borges de Medeiros: Controle total do estado via reeleições ilimitadas, gerando a Revolução de 19231923. O Pacto de Pedras Altas proibiu novas reeleições.

  • Revolução de 1930: Getúlio Vargas, ex-presidente do estado, assumiu o poder nacional após o rompimento da política café-com-leite e a derrota eleitoral da Aliança Liberal (alegando fraude). Iniciou-se a mudança da base econômica do Brasil: da agricultura para a indústria.

  • Estado Novo e Nacionalização: Durante a ditadura varguista, houve repressão às culturas imigrantes. Proibiu-se falar alemão e italiano em público e exigiu-se que todas as aulas fossem em português, visando a assimilação nacional forçada.