Capítulo 7 – Cabos de Fibras Naturais
Cabos: Classificação Geral
Os cabos são classificados quanto à matéria-prima em:
- Cabos de fibra
- Cabos de aço
Os cabos de fibra são subdivididos em:
- Cabos de fibras naturais
- Cabos de fibras sintéticas
Os cabos de aço são feitos principalmente com fios de arame de aço, mas cabos inferiores podem usar ferro.
Cabos de Fibras Naturais: Matéria-Prima
Os cabos de fibras naturais mais usados a bordo são a manilha e o sisal.
- Manilha: Fibra lisa e sedosa resistente à água salgada devido aos óleos naturais. Quando molhada, não perde resistência, mas deve ser enxugada após o uso. É 10% menos resistente que o linho cânhamo branco, 22% mais leve e menos sensível à umidade, com alguma flutuabilidade. Mais forte e flexível que o linho alcatroado, mas deteriora-se mais rápido. Estava sendo substituída pelo sisal na época em que o livro foi escrito.
- Sisal: Mais barato que a manilha e aceita melhor o alcatrão, mas sofre mais com o tempo e enfraquece com a à umidade. A resistência à tração é 20% menor do que a da manilha. A fibra não é tão lisa e macia.
- Linho Cânhamo: Cabos esbranquiçados como algodão, de grande resistência e flexibilidade quando molhados. Pode ou não receber tratamento com alcatrão.
- Linho Branco (não alcatroado): Mais forte dos cabos de fibra, mas absorve muita umidade e se deteriora. Usado em aparelhos de elaborar de grandes pesos.
- Linho Alcatroado: Tratado com alcatrão para evitar deterioração rápida com a umidade, mas o alcatrão reduz a resistência e a flexibilidade.
- Cânhamo: Usado em cabos finos, fios e linhas. Quando usado em cabos de grande bitola, é alcatroado. Comparado ao linho cultivado, é 30% menos resistente e 40% mais leve. Usado nas adriças de bandeiras.
- Coco: Não apodrece com a água (estratégia de colonização do coqueiro), mas a resistência é baixa. Usado para defensas, coxim e redes, onde o cabo fica muito tempo na água e não precisa ser muito forte.
- Juta: Não é usada a bordo, pois as fibras se separam em contato com a água. Usada para fazer sacos na indústria.
- Algodão: Pouco resistente, usado para adornos, cabos finos, linhas de barca, prumos, fios de cosé, etc.
- Pita: Forte, apenas 10% mais fraca que o linho branco, mas não recebe alcatrão e apodrece com facilidade.
- Piaçava: Flutua e não apodrece na água, mas não é muito usada porque as fibras são muito rígidas.
Construção dos Cabos de Fibra Natural
Manufatura
Processamento da Fibra
- Curtimento: Remove a substância gomosa das fibras.
- Trituração: Fragmenta as partes lenhosas ou talos.
- Tasquinha: Separa os talos, deixando livre a parte têxtil.
Cardação: Isola as fibras, torna-as paralelas e distribui as extremidades ao longo do comprimento. Separa os filamentos mais longos e descarta os curtos (estopa).
- As fibras podem passar por banho de alcatrão (para cabos alcatroados) ou óleos lubrificantes (para cabos brancos). O óleo lubrificante facilita o trabalho e aumenta a resistência à umidade.
Fiação: As fibras são separadas por qualidade e seguem para o processo de fiação.
Detalhes da Construção
- Fios primários (fibras) são torcidos para formar fios de carreta.
- Fios de carreta são torcidos no lado oposto para formar cordões (ou pernas).
- 3 ou 4 pernas formam o cabo.
- Essa construção é semelhante ao processo para cabos de fibra sintética discutido no capítulo 7 do Tug Us Import, mas este se refere aos cabos de fibra natural.
Cabos de Massa
- Cabos com 3 ou 4 pernas.
- Os cabos mais usados são os de 3 pernas.
Cabos Calabroteados
- Formados pela torção de 3 cabos de massa.
- A torção é sempre no sentido contrário à torção anterior para não desconchar.
Coxa
- Intervalo entre as pernas.
- Ângulo que as pernas fazem em relação ao eixo do cabo.
- Comprimento dos trançados individuais dos cabos trançados de 8 pernas (comprimento de costura).
Madre
- Cabos de maior bitola podem ter 4 pernas, cochadas em torno da madre.
- Madre é um cabinho mais fino no meio do cabo. Nos cabos de aço, a madre é chamada de alma.
- Cabos de 3 pernas não têm madre.
- A madre dá mais flexibilidade, mas não aumenta a resistência, pois arrebenta antes das pernas.
- A construção dos cabos se baseia na oposição das coxas.
- As pernas são neutras (torção para um lado e para o outro).
- Os cabos têm uma torção extra para neutralizar a tendência a descoxar.
- Normalmente, os cabos são cochados para a direita.
- Em alguns cabos finos, as pernas são trançadas em vez de torcidas, diminuindo a tendência a formar cocas (nós) mas reduzindo a elasticidade.
- Em cabos trançados de 8 pernas, 4 pernas são cochadas para a direita e 4 para a esquerda.
Efeitos Mecânicos da Torção
A torção visa impedir que as fibras escorreguem umas sobre as outras, devido ao atrito mútuo.
Vantagens da Torção
- Aumenta o atrito.
- Une as fibras, tornando o cabo menos apto a receber umidade.
- Dá ao cabo uma ligeira elasticidade (efeito de mola).
Desvantagens da Torção
- O cabo perde de 30% a 60% da resistência. Fibras dispostas de forma paralela são mais resistentes.
- Aumenta a tendência do cabo a formar cocas.
Por que a Torção Diminui a Resistência
A força aplicada no cabo está na direção do eixo do cabo, mas as fibras estão dispostas em outra direção, seguindo o ângulo da coxa. Quanto maior o ângulo de coxa, menor a resistência do cabo.
Elasticidade dos Cabos de Fibra
As fibras naturais não possuem limite de elasticidade permanente dentro do qual podem trabalhar indefinidamente sem deformação. A elasticidade é conferida pela espiral da coxa. Ao esticar um cabo novo, parte do alongamento se torna definitivo.
Quando o limite é atingido por esforço grande, as fibras escorregam, diminuindo a resistência do cabo. Por essa razão, os cabos de fibra natural nunca devem ser submetidos a esforços próximos de sua carga nominal. Trabalha-se com um fator de segurança de pelo menos 5 entre as cargas de trabalho e a carga de ruptura.
O alongamento máximo dos cabos brancos é de 7% a 8%, e dos alcatroados é de 4%. Se alongados mais do que isso, os fios de carreta começam a se romper.
Efeitos da Umidade
A umidade aumenta a resistência dos cabos de fibra natural em aproximadamente 10% se o cabo for novo, mas torna o cabo pesado, diminui a flexibilidade, aumenta a tendência a tomar cocas e apodrece as fibras. A umidade também contrai os cabos.
A manilha é o cabo de fibra natural que menos sofre com a umidade, devido aos óleos que contém. Recebe óleo lubrificante na fabricação para diminuir o atrito interno, facilitar o manuseio e aumentar a vida útil.
O cânhamo e o sisal absorvem muita umidade e incham. Por essa razão, suas fibras recebem banho de alcatrão vegetal antes da manufatura do cabo. O alcatrão enfraquece o cabo.
Cabos não alcatroados não devem ser percentados ou forrados, pois a cobertura retém a umidade dentro do cabo.
Percentar e forrar são trabalhos de cobrir o cabo, como engaiar, trincafiar, encapar ou en mangueirasrar.
Diferenças entre Cabos de 3 e 4 Pernas
Vantagens dos Cabos de 4 Pernas
- Mais flexíveis por causa da madre (não confundir flexibilidade com elasticidade).
- Maior superfície de apoio.
- Indicados para aparelhos de elaborar.
Desvantagens dos Cabos de 4 Pernas
- 20% menos resistentes à tração, pois o ângulo de coxa é maior.
- As fibras sofrem maior esforço para a mesma carga.
- A madre desequilibra o atrito mútuo dos filamentos, contribuindo para partir as fibras interiores.
- Mais pesados (5% a mais), pois têm mais fibras por metro de comprimento.
- A madre tende a partir primeiro, pois não tem a mesma elasticidade das pernas.
Comparação entre Cabos Calabroteados e de Massa
Vantagens dos Cabos Calabroteados
- Mais elásticos, pois a torção é maior.
- Maior uniformidade de resistência, pois as pernas são mais finas, diminuindo a diferença de tensão entre os fios centrais e periféricos.
- Duram mais, pois a água penetra com mais dificuldade, devido à maior torção.
- 6% mais leves.
- Usados onde devem suportar choques e lupadas, devido à maior elasticidade (cabos de reboque e espia).
Desvantagens dos Cabos Calabroteados
- 40% menos resistentes.
- Menos flexíveis, pois a torção das fibras é maior.
- Não são indicados para aparelho de laborar nem para aparelho fixo.
Medidas dos Cabos de Fibra Natural
- Medidos pelo diâmetro nominal ou pela circunferência.
- Normalmente, as medidas são dadas pela circunferência em polegadas.
Cabos Finos
- Circunferência menor que 1 polegada e meia.
- A maioria dos carrocinois é construída em linha cânhamo, podendo ser branco ou alcatroado.
- Designados pelo número de fios de carreta que contêm (máximo de 20).
- Vendidos pela duzia, medida em peso.
Tipos de Cabos Finos (segundo o texto)
- Linha Alpadoada (mais forte).
- Sondaresa (calabroteada).
- Merlin (melhor acabamento).
- Fio de vela (para falcaçar).
- Palombra/Palomba (para coser as tralhas nas velas).
- Arremén (meia polegada de circunferência).
Desbolinar Cabos
Desbolinar é desfazer a tendência a tomar cocas. Nos cabos de maior bitola, não é possível restabelecer as pernas retorcidas. Desboline sempre que cortar cabo novo da peça ou quando for recolher cabo que já está em serviço.
Formas De Colher Cabos
- Em Pandeiro: No mesmo sentido da coxa, a partir do seio. Aplica-se aos tiradores das talhas.
- À Inglesa: No mesmo sentido da coxa, a partir do seio. Aplica-se ao atirador de uma talha e é usado para fazer enfeite.
- Em Cobrros: Pelo seio ou pelo chicote. Usado para correntes, amarras e espias de grande bitola.
Uso e Conservação dos Cabos
- Nunca use um cabo que já tenha sofrido uma tensão próxima da carga de ruptura, nem um cabo que tenha sido continuamente usado sob esforços moderados.
- Cabos novos com as coxas bem apertadas e cabos úmidos têm maior tendência a tomar cocas.
- Se o cabo tem cocas, não o tese.
- Cabos que colaboram em guinchos e roldanas, sempre no mesmo sentido, tendem a tomar cocas. Inverta o sentido depois de certo tempo, fazendo o cabo burnir pelo outro chicote. Não faça isso em aparelhos de laborar; troque o cabo. No caso de espias, troque a posição dos chicotes após cada viagem.
- Tire as cocas de um cabo molhado antes de secar.
- Cabos que forem pesados secos, principalmente os do aparelho de elaborar, devem ser imediatamente solecados quando chover.
- Ácidos atacam os cabos. Cabos úmidos absorvem facilmente os gases ácidos.
- Para emendar cabos de forma permanente, a costura é a emenda preferível, pois é mais forte do que o nó.
Carga de Ruptura
A carga de ruptura dos cabos de fibra natural é variável, pois depende de fatores incertos como a colheita da fibra, a manufatura e o grau de torção. É dada por tabelas do fabricante ou por fórmulas empíricas:
Onde:
- é a resistência em quilogramas.
- é a circunferência em centímetros.
- é um coeficiente que depende do tipo de cabo.
Valores de :
- Cabos de massa de linho branco com 3 pernas:
- Cabos de massa de linho cânhamo alcatroado com 3 pernas:
- Cabos de manilha com 3 pernas:
Para uso imediato em cabos de manilha, quando não se conhece o valor de :
Onde é a resistência em toneladas.
Carga de Trabalho
A resistência dos cabos diminui rapidamente com o uso e varia muito com a velocidade de movimento. A margem de segurança serve para que não seja ultrapassado o limite de elasticidade permanente.
A margem de segurança é dada como uma razão:
Condições:
- Melhores condições (cabo novo): 4
- Condições normais: 5
- Condições desfavoráveis (betas de talhas, aparelhos de elaborar após 6 meses de uso contínuo): 8
- Condições mais desfavoráveis (cabo trabalha com grande velocidade de movimento): 10
- Cabo sujeito a lupadas: 12
Rigidez dos Cabos
A rigidez é o inverso da flexibilidade. Quanto mais novo o cabo, maior a rigidez. A força para vencer a rigidez é função do diâmetro do cabo (quanto maior, maior a força), do diâmetro da roldana (quanto maior, menor a força) e do peso a içar. Ao valor dessa força devido à rigidez do cabo, deve-se somar o peso da carga a içar.
Comparação Entre Cabos
Cabos Diferentes Apenas nas Bitolas
Cabos de bitolas diferentes, mas da mesma matéria-prima e mesmo tipo de manufatura, as cargas de ruptura estão entre si como os quadrados das respectivas circunferências: