Notas de Estudo: Reologia e Fluxo de Fluidos Newtonianos

Introdução à Reologia e Viscosidade

A reologia é o estudo das propriedades de fluxo e deformação da matéria, termo formalmente adotado em 1929 por Bingham. No contexto farmacêutico, sua aplicação evoluiu de um simples método de caracterização (como o controle da parafina líquida na British Pharmacopoeia) para uma ferramenta essencial no desenvolvimento e avaliação de formas farmacêuticas, influenciando testes de dissolução, o uso de polímeros e a compreensão da biodisponibilidade através de propriedades viscoelásticas.

  • Definição de Viscosidade: É a resistência de um fluido ao fluxo ou movimento. Por exemplo, a água possui menor viscosidade que um xarope pois é mais fácil de ser agitada.

Fluidos Newtonianos e Coeficientes de Viscosidade

Newton estabeleceu que a velocidade do fluxo (γ\gamma) é diretamente proporcional à tensão aplicada (σ\sigma). Fluidos que seguem essa relação são chamados de newtonianos.

  • Viscosidade Dinâmica (η\eta): É a constante de proporcionalidade da Lei de Newton:     σ=ηγ\sigma = \eta \gamma

    • Unidades: No sistema internacional, a unidade é o Pascal-segundo (PasPa \, s), sendo comum o uso do submúltiplo milliPascal-segundo (mPasmPa \, s). No sistema cgs (obsoleto, mas ainda citado), utilizava-se o Poise (1dinacms1 \, dina \, cm \, s) e o centipoise (cPcP), onde 1mPas=1cP1 \, mPa \, s = 1 \, cP.

    • Exemplos a 20C20 \, ^{\circ}C (mPasmPa \, s):

      • Clorofórmio: 0,580,58

      • Água: 1,0021,002

      • Etanol: 1,201,20

      • Trinitrato de glicerila: 36,036,0

      • Óleo de oliva: 84,084,0

      • Óleo de rícino: 986,0986,0

      • Glicerina: 14901490

  • Mecanismo de Fluxo: Pode ser visualizado como um cubo de lâminas infinitamente finas deslizando umas sobre as outras. A camada superior move-se com força tangencial, enquanto a inferior permanece estacionária, criando um gradiente de velocidade (velocidade de cisalhamento, γ\gamma) medido em segundos recíprocos (s1s^{-1}).

Outros Coeficientes e Relações Matemáticas

  • Viscosidade Cinemática (ν\nu): Definida como a viscosidade dinâmica dividida pela densidade (ρ\rho) do fluido:     ν=ηρ\nu = \frac{\eta}{\rho}     Unidade SI: m2s1m^2 \, s^{-1} (ou mm2s1mm^2 \, s^{-1}). A unidade antiga era o Stoke, sendo o centistoke (cscs) ainda encontrado na literatura.

  • Viscosidade Relativa (ηr\eta_r) e Específica (ηsp\eta_{sp}):

    • Relativa: ηr=ηη0\eta_r = \frac{\eta}{\eta_0}

    • Específica: ηsp=ηr1\eta_{sp} = \eta_r - 1     Onde η\eta é a viscosidade da solução e η0\eta_0 a do solvente.

  • Equação de Einstein para Dispersões Coloidais:     η=η0(1+2,5ϕ)\eta = \eta_0(1 + 2,5 \phi)     Onde ϕ\phi é a fração volumétrica da fase dispersa. Dela deriva-se:     ηspC=k\frac{\eta_{sp}}{C} = k

  • Viscosidade Intrínseca ([η][\eta]): É o limite da viscosidade reduzida (ηsp/C\eta_{sp}/C) quando a concentração tende a zero. É utilizada para determinar a massa molecular aproximada (MM) de polímeros pela Equação de Mark-Houwink:     [η]=KMα[\eta] = K M^{\alpha}     As constantes KK e α\alpha dependem do sistema polímero-solvente e da temperatura. Valores de α=0\alpha = 0 indicam moléculas esféricas, enquanto \alpha > 1 indica bastões estendidos.

  • Constante de Huggins (k1k_1): Representa a inclinação do gráfico de viscosidade reduzida versus concentração. Indica o nível de interação entre polímero e solvente; inclinações menores (menos positivas) sugerem maior interação.

Dinâmica de Fluxo em Tubulações

  • Camadas Limítrofes: Região próxima a uma superfície onde a velocidade do fluido varia de zero (na parede) até a velocidade constante do seio do fluido. Em tubos capilares, a distribuição de velocidade é parabólica. Camadas espessas surgem em fluxos lentos ou fluidos viscosos, atuando como barreiras à transferência de calor e massa.

  • Tipos de Fluxo (Experimento de Reynolds):

    • Laminar: O fluido move-se em cilindros concêntricos sem mistura lateral. O corante injetado permanece como um fio coerente.

    • Transicional: O fio de corante começa a ondular e rompe-se.

    • Turbulento: Movimento molecular aleatório e mistura instantânea, permitindo transporte rápido de massa.

  • Número de Reynolds (ReRe): Parâmetro adimensional que prediz o regime de fluxo:     Re=ρudηRe = \frac{\rho u d}{\eta}     Onde ́ é a densidade, uu a velocidade e dd o diâmetro do tubo.

    • Re < 2000: Fluxo Laminar.

    • Re > 4000: Fluxo Turbulento.

    • Entre 20002000 e 40004000: Fluxo Transicional (dependente da rugosidade da superfície).

Métodos de Determinação da Viscosidade

  • Viscosímetros Capilares (Ostwald e Ubbelohde):     Baseiam-se na Lei de Poiseuille:     η=πr4tP8LV\eta = \frac{\pi r^4 t P}{8 L V}     A medida é feita pelo tempo (tt) que um volume definido leva para percorrer o capilar sob gravidade.

    • Ostwald (Tubo em U): Requer volume preciso. O tempo de fluxo ideal é de cerca de 200s200 \, s.

    • Ubbelohde: Modificação que dispensa volume preciso e evita mudanças de pressão hidrostática durante a medição. Permite medidas em várias temperaturas sem reajustar o volume.

    • Cálculo por Comparação: ́\frac{\eta_1}{\eta_2} = \frac{t_1 \rho_1}{t_2 \rho_2}

  • Viscosímetro de Queda de Esfera:     Baseado na Lei de Stokes. Quando uma esfera atinge a velocidade terminal (uu), o arraste viscoso equilibra a força gravitacional:     η=d2g(ρsρl)18u\eta = \frac{d^2 g (\rho_s - \rho_l)}{18 u}

    • Correção de Faxen (FF): Necessária para compensar as paredes e extremidades do tubo de medição:         F=12,104(dD)+2,09(dD)30,95(dD)5F = 1 - 2,104 \left(\frac{d}{D}\right) + 2,09 \left(\frac{d}{D}\right)^3 - 0,95 \left(\frac{d}{D}\right)^5         Onde dd é o diâmetro da esfera e DD o do tubo. A medição deve focar no terço médio do tubo para minimizar efeitos de extremidade.