13 Miguens_14_2 Interpretação da Imagem Radar

Navegação Radar - Interpretação da Imagem Radar

A interpretação da imagem radar nem sempre é fácil e requer experiência, especialmente em condições meteorológicas desfavoráveis.

Fatores que Produzem Erros na Interpretação

  1. Poder de discriminação e marcação

  2. Poder de discriminação e distância

  3. Setores de sombra

  4. Ecos múltiplos

  5. Ecos falsos

  6. Ecos laterais

Os dois primeiros fatores foram abordados na sessão 14.1.

Áreas e Setores de Sombra Radar

Ocorrem quando um navio grande obscurece um alvo menor posicionado atrás, ou quando um alvo além do horizonte radar é obscurecido pela curvatura da Terra. Obstáculos no próprio navio, como uma chaminé, também podem causar obstrução, resultando em arcos ou setores cegos.

Quando a chaminé reflete os ecos para a antena do radar, a antena ainda está emitindo energia de radiofrequência e, portanto, não detecta a chaminé. Qualquer superfície metálica que se interponha na trajetória da energia irradiada reduz a intensidade do campo e, consequentemente, a distância de detecção na marcação correspondente.

Diagramas de Cobertura Horizontal

Mostram as distâncias de detecção nas várias marcações relativas do navio onde o radar está instalado. O diagrama de radiação horizontal de uma antena não obstruída (alfa) é diferente do diagrama de uma antena com obstrução no setor de ré (bravo).

Ecos Múltiplos

Causados por reflexões múltiplas de pulsos entre o navio e um alvo próximo, geralmente outro navio. O eco múltiplo é um pique falso que aparece na tela do radar na mesma marcação que o alvo real, mas em uma distância múltipla da correta.

A antena emite um pulso que reflete no alvo, reflete no costado do navio, volta para o alvo e retorna para a antena. A tela marca dois alvos na mesma marcação, mas com a distância múltipla (eco duplo ou triplo).

Calibragem do Radar

Ecos múltiplos podem ser usados para verificar a calibragem do radar. Se o radar estiver calibrado corretamente, a distância ao segundo eco será o dobro da distância ao alvo real. Qualquer erro de calibragem pode ser detectado pela medida da distância do primeiro eco ao segundo.

Definindo as distâncias:

  • d: distância da antena do radar até o alvo e de volta.

  • d_2: distância da antena, refletindo no alvo, no costado do navio, voltando para o alvo e para a antena.

As equações são:

  • d = \frac{1}{2} \cdot t \cdot c + EC

  • d_2 = t \cdot c

Onde:

  • t é o tempo.

  • c é a velocidade da luz.

  • EC é o erro de calibragem.

A distância do alvo real até o eco duplo é d_2 - d:

d_2 - d = t \cdot c - (\frac{1}{2} \cdot t \cdot c + EC) = \frac{1}{2} \cdot t \cdot c

Subtraindo as equações, o erro de calibragem se cancela.

Eco Falso (Eco Indireto)

É um pique falso que aparece no PPI (Plane Position Indicator). Ocorre quando a energia refletida pelo alvo reflete-se novamente em uma parte da estrutura do navio antes de retornar para a antena. Aparece na mesma distância que o eco verdadeiro, mas na marcação da superfície refletora intermediária.

Exemplo

A antena emite um pulso para o objeto, que volta para a antena. A antena gira e o pulso reflete na chaminé, vai até o alvo, volta para a chaminé e volta para a antena, formando o eco falso.

Outro tipo de eco falso pode ser causado pela reflexão da energia irradiada de um navio para outro antes de retornar à antena do radar.

A montagem da antena do radar em uma plataforma imediatamente à frente do mastro pode causar ecos falsos, especialmente com navios navegando em coluna.

Ecos Laterais

São um tipo de eco falso causados pelos lóbulos laterais (ou secundários) do feixe radar. A antena irradia, além do lóbulo principal, lóbulos laterais indesejáveis. Se a energia desses lóbulos laterais é refletida por um alvo, aparecerão ecos laterais na tela do radar.

Como o campo energético dos lóbulos secundários é fraco, eles afetam apenas os alvos próximos. O eco lateral tem a aparência de um arco de círculo. Se o alvo estiver muito próximo, pode formar um semicírculo ou um círculo completo, com raio igual à distância do alvo.

Minimizando Efeitos

Para minimizar o efeito de ecos laterais, diminui-se o ganho ou aumenta-se o controle STC (Sensitivity Time Control).

Alvos Terrestres

A largura do feixe radar e o comprimento dos pulsos transmitidos causam distorções na imagem radar, resultando em falsas linhas de costa e outras deformações. Superfícies verticais são melhores refletoras. A superfície do mar só retorna ecos com vagas.

Dunas de Areia

Dunas cobertas com vegetação produzem um sinal forte, levando o operador a considerá-las como a linha da costa. Um exame cuidadoso da carta náutica é essencial.

Dunas de areia podem produzir ecos fortes devido à combinação da superfície vertical da duna com a superfície horizontal da praia, formando uma espécie de diedro refletor de radar.

Alvos no Mar

Navios geralmente fornecem bons ecos, especialmente quando vistos de través. As distâncias de detecção variam:

  • Barcos de madeira: 0,5 a 4 milhas

  • Baleeiras: até 2 milhas

  • Traineiras: 6 a 9 milhas

  • Navios pequenos: 6 a 10 milhas

  • Navios de 10000 toneladas: 10 a 16 milhas

  • Navios de 50000 toneladas: 16 a 20 milhas

Recomenda-se o uso de refletor radar, especialmente em embarcações pequenas.

Boias

Boias geralmente produzem arcos fracos, especialmente as de forma abaulada ou cônica, que refletem a energia para cima, longe da antena do radar.

  • Boias pequenas: 0,5 a 1 milha

  • Boias maiores: 2 a 4 milhas

  • Boias com refletor radar: até 6 a 8 milhas

Fenômenos Meteorológicos

Nuvens

Nuvens podem ser detectadas, especialmente cúmulos nimbos, e aparecem como ilhas com contornos definidos. Se a nuvem não contém chuva, dificilmente será detectada.

Chuva

A intensidade dos ecos da chuva pode mascarar ecos de terra e de alvos no mar, além de diminuir o alcance radar. O operador deve ajustar os controles de ganho e FTC (Fast Time Constant) para diminuir o clutter da chuva. A banda X é mais influenciada pela chuva do que a banda S.

Granizo

Granizo é menos prejudicial que a chuva, causando menor atenuação e clutter. O operador deve ajustar os controles do radar da mesma maneira que para chuva.

Serração e Smog

Nevoeiro reduz a visibilidade para 1 km ou menos, enquanto neblina permite ver um pouco mais. Nevoeiro pesado (visibilidade de 100 metros ou menos) reduz o alcance radar para 60\% do normal. Radares de banda X podem detectar bancos de nevoeiro pesado de grande densidade.

Smog é a névoa seca comum em grandes cidades, diminuindo o alcance radar devido à absorção de energia pelas partículas em suspensão.

Em qualquer tipo de precipitação, o radar de banda S é menos afetado que o de banda X.

Vento

A direção do vento pode ser inferida indiretamente, pois o vento influencia o estado do mar, gerando vagas. O clutter do mar é mais pronunciado a barlavento do que a sotavento.

Tempestades Tropicais

Tempestades tropicais produzem ecos bem definidos no radar.

Auxílios à Navegação no Radar

Podem ser ativos (emitem sinal) ou passivos (refletem sinal).

Refletor Radar

É o único auxílio passivo, composto por superfícies refletoras planas formando ângulos retos entre si (diedro ou triedro refletor).

Racon (Radar Beacon)

É um auxílio ativo que, quando excitado por um radar de navegação, retorna um sinal distinto que aparece na tela do radar, possibilitando a identificação positiva do alvo, bem como a leitura precisa de marcação e distância radar. Possui agilidade de frequência e dualidade de banda (responde em banda X e S). Geralmente transmite um sinal Morse.

Usos do Racon
  • Aterragem

  • Navegação a curta distância

  • Alinhamento

  • Marcações de pontes

  • Novos perigos (cascos soçobrados)

  • Identificação de linha de costa

  • Marcação de estruturas ao largo (plataformas de petróleo)

Ramarc (Radar Marker)

É um auxílio ativo que transmite continuamente ou a intervalos (mais comum) sem a necessidade de ser excitado pelo radar do navio. O sinal forte pode dar origem a ecos falsos, que podem ser atenuados com o FTC. Sinal aparece como uma linha radial tracejada ou pontilhada, indicando apenas a marcação.

Radar Target Enhancer (RTE)

É um auxílio ativo que recebe o pulso do radar e retransmite como eco reforçado, podendo ser utilizado em boias ou pequenas embarcações (especialmente de fibra de vidro ou madeira).