Sermão de Santo António aos Peixes - Notas Exaustivo

Conceito de Sal e a Missão de Pregador (Capítulo I)

  • O Provérbio de Cristo: O sermão baseia-se na metáfora bíblica de Mateus 5:135:13: "Vos estis sal terrae" (Vós sois o sal da terra). O Padre António Vieira explica que Cristo chama os pregadores de "sal da terra" porque o ofício destes deve ser idêntico ao do sal: impedir a corrupção.
  • O Dilema da Corrupção: Vieira questiona por que a terra está tão corrupta se há tantos pregadores que deveriam atuar como sal. Ele propõe duas causas possíveis para esse fenômeno:     * O sal não salga: Os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; dizem uma coisa e fazem outra (falta de exemplo); ou pregam por vaidade própria em vez de pregarem a Cristo, servindo aos seus próprios apetites.     * A terra não se deixa salgar: Os ouvintes não querem receber a verdadeira doutrina; preferem imitar os maus exemplos dos pregadores; ou servem aos seus apetites em vez de servirem a Cristo.
  • Consequências para o Sal Inútil: Citando Mateus V:13V:13, Vieira afirma que o sal que perde a sua virtude só serve para ser lançado fora e pisado pelos homens. Assim, o pregador que falha na doutrina ou no exemplo merece o desprezo total da sociedade.
  • O Exemplo de Santo António em Arímino:     * Em Arímino, Itália, o Santo pregava contra hereges sem sucesso. O povo chegou a ameaçar a sua vida.     * A prudência humana sugeria calar-se ou retirar-se, mas o zelo de António levou-o a uma solução "galharda": mudou o púlpito e o auditório. Deixou as praças e foi para as praias, pregando aos peixes: "Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes".
  • A Situação do Pregador no Maranhão: Vieira traça um paralelo entre Arímino e a sua situação no Brasil. Ele afirma que pregou exaustivamente para a reforma dos vícios locais, mas colheu pouco fruto. Por isso, decide imitar Santo António e voltar-se da terra ao mar.

Louvores Gerais e Propriedades dos Peixes (Capítulo II)

  • Vantagens do Auditório Marítimo: Vieira ironiza que os peixes são melhores ouvintes que os homens porque ouvem e não falam. A única dor do pregador seria a impossibilidade de convertê-los, mas ele está habituado a ouvintes humanos que também não se convertem.
  • A Natureza do Sal Marinho: O sal, "filho do mar", tem duas propriedades: conservar o que está são e preservar do mal. A pregação deve fazer o mesmo: louvar o bem e repreender o mal.
  • Excelência da Criação dos Peixes:     * Foram as primeiras criaturas vivas criadas por Deus, antes das aves, dos animais terrestres e do homem.     * Na provisão de domínio dada ao homem (Ge^nesisI:26Gênesis I:26), os peixes foram os primeiros nomeados.     * São os animais em maior número e de maior grandeza (o elefante não se compara à baleia).     * Moisés, na descrição da criação (Ge^nesisI:21Gênesis I:21), destacou nominalmente os grandes monstros marinhos: "Creavit Deus cete grandia".
  • Obediência e Devoção: Vieira louva a obediência e o silêncio dos peixes ao ouvirem a palavra de Deus através de António, contrastando com os homens furiosos que o perseguiam. Enquanto os homens agiam como feras, os peixes agiam com ordem e atenção.
  • O Caso de Jonas: Os homens lançaram Jonas ao mar para ser comido, enquanto o peixe o recolheu em suas entranhas para salvá-lo e levá-lo à praia de Nínive. Os peixes ajudam a salvação, enquanto os homens perseguem os ministros dela.
  • A Liberdade e o Retiro dos Peixes:     * Diferente dos animais terrestres e aves, os peixes são indomáveis e não se domesticam.     * Vieira louva este isolamento: animais domésticos pagam a familiaridade com a servidão (cão na trela, boi sob o jugo, cavalo sob a espora, pássaro na gaiola).     * O Dilúvio: No castigo universal de Noé, todos os animais terrestres e aves morreram, exceto os poucos na barca. Os peixes sobreviveram todos porque viviam longe dos homens. Santo Ambrósio explica que a proximidade com o homem traz o mal e o castigo.
  • O Exemplo Pessoal de Santo António: O Santo fugiu dos homens para encontrar a Deus, mudando de hábito e nome, escondendo a sua sabedoria sob uma aparência de idiota e buscando o ermo.

Virtudes Particulares de Certas Espécies (Capítulo III)

  • O Peixe de Tobias:     * Narrativa bíblica: Um grande peixe atacou Tobias no rio. Por orientação do anjo Rafael, ele guardou o fel e o coração.     * Poderes Curativos: O fel curou a cegueira do pai de Tobias e o coração queimado expulsou o demônio Asmodeu.     * Paralelo com António: Se o peixe vestisse burel, seria o retrato de António. O Santo também abria a boca para iluminar cegueiras espirituais e expulsar demônios da vida dos homens.
  • A Rémora:     * Um peixe minúsculo (11 palmo) capaz de prender e imobilizar uma nau da Índia contra ventos e correntes.     * Metáfora da Língua: A língua de Santo António foi a Rémora da terra. Ela imobilizou navios espirituais carregados de vícios:         * Nau Soberba: Amainando as velas do orgulho.         * Nau Vingança: Detendo o ódio até a paz.         * Nau Cobiça: Impedindo a carga injusta do roubo.         * Nau Sensualidade: Guiando a alma fora do nevoeiro da paixão.
  • O Torpedo:     * Provoca tremores físicos no braço do pescador através da linha.     * O Tremor da Consciência: Vieira lamenta que os pescadores da terra (governantes e juízes) pesquem cidades e reinos sem tremer a mão. No entanto, o sermão de António fez 2222 ladrões/pescadores tremerem de tal forma que confessaram e restituíram seus furtos.
  • O Quatro-Olhos:     * Peixe com dois pares de olhos: um par voltado para cima (sentinela contra aves) e outro para baixo (sentinela contra peixes).     * Doutrina Espiritual: Ensina que o homem deve olhar sempre para cima (Céu) e para baixo (Inferno) para evitar a vaidade do mundo. Salmo 118:37118:37: "Averte oculos meos ne videant vanitatem".
  • Amigos da Virtude: Os peixes são companheiros do jejum e da abstinência dos justos, sustentando ordens religiosas (Cartuxas e Buçacos).

Repreensões Gerais: O Vício de se Comerem uns aos Outros (Capítulo IV)

  • A Antropofagia Social: Vieira critica o fato de peixes grandes comerem os pequenos. Ele transporta esta imagem para os homens, especialmente na cidade.
  • O Matadouro dos Brancos:     * Os homens não esperam a morte para se devorarem. Quando alguém morre na cidade, é "comido" por herdeiros, credores, médicos, sangradores e oficiais de justiça.     * Comidos Vivos: Através de pleitos e processos judiciais, os grandes (juízes, escrivães, advogados) devoram o acusado antes mesmo da sentença. São piores que corvos, que só esperam a morte.
  • Análise de Salmo 13:413:4: Deus se queixa dos que devoram o povo como se fosse pão.     * Como Pão: Outros alimentos têm época ou dias específicos (frequência), mas o pão é diário. Assim, os pequenos são devorados todos os dias e com tudo.
  • O Ciclo da Injustiça: Os governadores que vêm de Portugal para devorar o Estado do Maranhão, ao retornarem ao Tejo, acabam sendo devorados por outros maiores lá. É a justiça divina (PredominorisfitpredamaiorisPredo minoris fit preda maioris).
  • A Discórdia Civil: Vieira implora aos peixes que cessem a guerra civil interna, lembrando que na Arca de Noé, sob a necessidade da conservação, os predadores conviveram com as presas em paz.

Repreensões Particulares a Espécies Específicas (Capítulo V)

  • Os Roncadores:     * Peixes pequenos que fazem grande barulho. Vieira critica a arrogância daqueles que têm muita língua mas pouca "espada".     * Exemplos Bíblicos: São Pedro roncou que morreria por Cristo, mas fraqueou diante de uma mulher; Golias roncava de valentia e caiu por uma pedra; Caifás roncava de saber e Pilatos de poder.
  • Os Pegadores:     * Vivem colados aos peixes grandes para comer seus restos.     * Sátira Política: Compara-os aos dependentes e parasitas que acompanham vice-reis e governadores para o Maranhão.     * Destino Comum: Quando o Tubarão morre pelo anzol, os pegadores morrem com ele. Morrem pela boca alheia, pagando por um crime que não cometeram (fome ou gula alheia).     * O Pegador de Deus: David era o pegador de Deus (MihiautemadherereDeobonumestMihi autem adherere Deo bonum est). Só quem se pega a Deus, que é imortal, está seguro.
  • Os Voadores:     * Peixes que tentam ser aves. Por quererem passar do elemento água para o ar, acabam encontrando os perigos de ambos (redes de pesca e laços de pássaros).     * Ambição e Queda: Vieira cita Simão Mago, que quis voar e acabou com os pés quebrados. Quem quer ser borboleta das ondas acaba com as asas queimadas no fogo da cozinha.
  • O Polvo:     * A maior repreensão é guardada para o Polvo: o maior traidor e hipócrita.     * Mimetismo como Malícia: Usa as cores para enganar as presas (faz-se verde nos limos, branco na areia, pardo no lodo).     * Comparação com Judas: O Polvo é pior porque Judas usou luzes (claridade) para trair, enquanto o Polvo escurece a própria água para cegar a vítima e prendê-la com os seus próprios braços.

Conclusão e Envio (Capítulo VI)

  • O Levítico e a Exclusão dos Peixes: Na lei antiga, peixes não eram sacrificados nos altares. Vieira explica que isso ocorria porque os peixes geralmente chegam mortos ao altar, e Deus não aceita coisas mortas.
  • Advertência Moral: Muitos homens chegam ao altar em pecado mortal. É preferível não chegar ao sacrifício do que chegar morto espiritualmente.
  • A Inveja do Pregador: Vieira confessa ter inveja da irracionalidade dos peixes. Os peixes não ofendem a Deus com palavras, memória, entendimento ou vontade. Eles cumprem o fim para o qual foram criados (servir ao homem), enquanto o homem falha no seu fim (servir a Deus).
  • Exortação Final: Vieira convida os grandes e pequenos monstros marinhos a louvarem a Deus por sua multiplicidade, beleza, sustento e conservação.
  • Bênção Final: O sermão termina pedindo a confirmação da bênção divina, mas sem a promessa de Graça ou Glória, das quais os peixes não são capazes.
  • Data e Assinatura: Padre António Vieira, 16541654.