Argumentos sobre a Existência de Deus: Oencia de Deus: O Argumento Cosmológico

Classificação dos Argumentos sobre a Existência de Deus

  • Os filósofos que procuram justificar a crença no Deus teísta desenvolveram argumentos que se dividem em duas grandes categorias baseadas na natureza das suas premissas:

  • Argumento a posteriori:   - Depende de, pelo menos, uma premissa que só pode ser conhecida através da experiência (conhecimento empírico).   - Pelo menos uma das suas premissas básicas é uma proposição a posteriori.

  • Argumento a priori:   - Assenta em premissas que podem ser conhecidas independentemente da experiência.   - Nenhuma das suas premissas básicas é uma proposição a posteriori.

  • Três principais argumentos em análise:   - Argumento Cosmológico: Argumento a posteriori baseado no facto de o Universo existir.   - Argumento Teleológico (ou Argumento do Desígnio): Argumento a posteriori que parte do facto de o mundo exibir ordem e finalidade.   - Argumento Ontológico: Argumento a priori que parte simplesmente do conceito de Deus.

O Argumento Cosmológico: Fundamentos e História

  • Contexto Histórico:   - As origens do argumento remontam aos escritos de Platão e Aristóteles.   - O progresso fundamental deste argumento ocorreu principalmente nos séculos XIII e XVIII.

  • Pressupostos sobre a existência do Universo:   - Algumas versões pressupõem que o Universo teve um início.   - Outras versões pressupõem que o Universo existe desde sempre.

  • Ideia Central: Sem a figura de Deus, não é possível explicar adequadamente a existência do Universo.

  • O Enigma da Existência: O argumento tenta responder à pergunta: "O que explica o facto de existir o Universo em vez de nada?".

  • Dados Científicos e Origem:   - A teoria do Big Bang indica que o Universo e o próprio espaço-tempo começaram há cerca de 14×10914 \times 10^9 anos (catorze mil milhões de anos).   - O argumento cosmológico questiona: "O que causou o Big Bang?".

O Argumento da Causa Primeira e Santo Tomás de Aquino

  • Definição do Argumento da Causa Primeira: É uma variante do argumento cosmológico que se baseia na ideia de que todas as coisas e mudanças na natureza são causadas por algo anterior.

  • Princípio da Causalidade: Nada surgiu ou começou a existir sem uma causa. Se o Universo existe hoje, houve uma série de causas e efeitos que o produziram.

  • Regressão Causal: Ao seguir a cadeia causal retrospetivamente, encontra-se uma causa original ou "Causa Primeira" que deu origem a todas as outras. Esta causa é identificada como Deus.

  • Santo Tomás de Aquino (1225-1274):   - Utilizou o argumento cosmológico para demonstrar a existência de Deus através das chamadas "Cinco Vias" na sua obra Summa Theologiae.   - As três primeiras vias são versões do argumento cosmológico:     - Primeira via: Baseada na relação entre o que se move e o motor.     - Segunda via: Baseada na relação entre efeito e causa eficiente.     - Terceira via: Baseada na relação entre a realidade contingente e a necessária.

A Segunda Via: A Causa Eficiente

  • Conceito de Causa Eficiente (Aristóteles): Designa o princípio da mudança, o fenómeno que produz outro ou o agente de uma transformação.

  • Lógica da Segunda Via de Tomás de Aquino:   - Descobrimos uma ordem de causas eficientes entre os seres sensíveis.   - É impossível algo ser causa eficiente de si próprio, pois isso exigiria que a coisa fosse anterior a si mesma.   - Não é possível proceder ao infinito na série de causas eficientes.   - Em causas ordenadas: a primeira causa a intermédia, e a intermédia causa a última.   - Se a causa for removida, o efeito também o é. Sem uma causa primeira, não haveria efeitos intermédios nem últimos.   - Como existem efeitos no presente, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos chamam Deus.

  • Estrutura Formal do Argumento:   1. Todos os acontecimentos e coisas no mundo são causados por algo, e nada é causa eficiente de si mesmo.   2. As causas são anteriores aos efeitos.   3. Ou a série de causas eficientes regride infinitamente, ou existe uma causa eficiente primeira.   4. A série de causas eficientes não regride infinitamente.   5. Logo, existe uma causa eficiente primeira — a que chamamos Deus.

Críticas e Objeções ao Argumento Cosmológico

  • Ultrapassagem da Experiência:   - A premissa de que todas as coisas têm uma causa baseia-se na experiência dentro do Universo.   - O argumento tenta aplicar esta ideia à criação do próprio Universo, que é algo fora da nossa experiência (a causa está fora do Universo).

  • Autocontradição:   - O argumento defende que todas as coisas foram causadas por outra (premissa), mas conclui que existe algo que não foi causado por outra coisa (Deus).   - A premissa principal contradiz a conclusão.

  • A Questão da Causa de Deus:   - Se tudo exige uma causa, surge a pergunta: "E o que causou Deus?".   - A resposta de que Deus é causa sui (causa de si mesmo) é considerada obscura por muitos filósofos.   - Se se admite que algo pode ser incausado, críticos perguntam por que razão esse algo tem de ser Deus e não o próprio Universo.

  • Possibilidade da Regressão Infinita:   - O argumento rejeita a regressão infinita, mas alguns filósofos defendem que é perfeitamente possível existir uma cadeia infinita de causas e efeitos que subsista sem necessidade de uma causa primeira.

  • Limites da Conclusão:   - Mesmo que se prove uma causa primeira poderosa, o argumento não garante que seja o Deus teísta.   - A causa originária poderia ser uma equipa de seres, não necessariamente um ser único.   - Nada no argumento prova que a causa primeira seja omnisciente, omnipotente ou sumamente boa.   - O Problema do Mal: Permanece o desafio de explicar como uma divindade com os atributos teístas tradicionais tolera o mal existente no mundo.

Questões e Discussão

  • Pergunta de Santo Tomás de Aquino: Por que razão a cadeia causal não pode regredir até ao infinito?   - Resposta: Segundo Aquino, se removêssemos a primeira causa (ao permitir o infinito), não haveria causa intermédia nem efeito último, o que contradiz a realidade observável dos efeitos presentes.

  • Hipótese Alternativa: É possível admitir que nada causou o Universo (diferente de dizer que o "nada" o causou), não exigindo uma explicação adicional.

  • Anedota Filosófica sobre a Preexistência: À pergunta "O que fazia Deus antes de criar o mundo?", uma resposta irónica mencionada é: "Preparava o inferno para aqueles que iriam fazer esse tipo de perguntas".