O Processo de Comunicação e a Situação Comunicativa: Guia Exaustivo de Estudo
Introdução
Função Primordial do Linguagem: A comunicação, em conjunto com a expressão do pensamento, constitui a função essencial da linguagem.
Visão de Dick: Define a linguagem como um instrumento de interação social entre seres humanos, utilizado com a intenção deliberada de estabelecer relações comunicativas através do diálogo.
Fatores Abrangentes: A comunicação não se restringe apenas ao diálogo; seu estudo envolve múltiplos fatores integrados na chamada competência comunicativa, abrangendo aspectos sociolinguísticos e pragmáticos.
O Processo de Comunicação
Escola de Palo Alto (Califórnia) e a Nova Comunicação: Autores como HALL e GOFFMAN sustentam que a comunicação é onipresente nas relações sociais, a ponto de ser impossível não se comunicar.
Conceito de Sistema: Linguistas, antropólogos e sociólogos deste grupo veem a comunicação como um sistema ou processo em que os interlocutores participam ativamente como parte de um intercâmbio social.
Análise de B. MALMBERG (La lengua y el hombre): * O processo exige um estímulo extralinguístico que demande a interação. * É necessária uma realidade comum a ambos os participantes e uma situação que os envolva. * A realidade deve ser conformada linguisticamente em expressões verbais. * Interpretação e Intuição: Destaca que as pessoas não possuem experiências idênticas, o que gera um percentual de atribuição de significado intuitivo. Um bom domínio da língua exige "capacidade de adivinhação".
Teoria da Ação Comunicativa de J. HABERMAS: A comunicação é vista como uma ação intersubjetiva regulada pelo princípio da racionalidade. Ela permite o entendimento mútuo e a criação de um espaço de pensamento comum, base das sociedades humanas. Utiliza o discurso como ferramenta de crítica e consenso.
Teorias Pragmáticas: Enfatizam o contexto e a situação. Todo processo comunicativo parte de uma situação para modificá-la ou alterar a posição dos falantes. * AUSTIN: Introduziu as "condições de felicidade" dos atos de fala. * SPERBER e WILSON (La relevancia): Destacam o conteúdo informativo da situação como um marco inferencial para interpretar a informação relevante.
Divisão de HYMES na Interação Comunicativa: 1. Situações de fala: Marcos onde ocorrem os eventos (ex: refeições, fóruns, aulas). 2. Acontecimentos de fala: Atividades regidas por normas ou regras dentro de uma situação. Um acontecimento pode incluir vários atos de fala. 3. Atos de fala: Emissão de enunciados em contexto para fins específicos (pedir informação, oferecer desculpas, etc.).
Mecanismos de Codificação e Descodificação
Definição de Comunicação: Processo em que uma mensagem emitida por um emissor é compreendida por um receptor (ou destinatário) por meio de um código comum.
Codificação (Emissão): Transformação de conceitos psíquicos em sinais acústicos. * Fase Intencional (Psicológica): Ordenação de estruturas semióticas na consciência e transmissão de impulsos nervosos. * Fase Motriz (Fisiológica): Inicia-se com a fonação.
Descodificação (Recepção): Processo inverso que envolve fases motriz e intencional. * As ondas sonoras são captadas pelo pavilhão da orelha, passam pelo conduto auditivo externo até o tímpano. * Ouvido Médio: Composto pelos ossículos soldados ao tímpano: martelo, bigorna e estribo (em espanhol: martillo, yunque y estribo). * Ouvido Interno: Composto pelo vestíbulo, canais semicirculares e o caracol. * Processamento Cerebral: O caracol possui filamentos nervosos cujas vibrações são levadas pelo nervio acústico aos centros cerebrais, onde ocorre a fase intencional (compreensão). * Feedback: O ouvido também funciona como um mecanismo de retroalimentação ou feedback.
As Funções do Linguagem
Karl Bühler (Teoría de lenguaje, 1934)
O linguagem configura-se em dois campos: 1. Simbólico ou Representativo: Função referencial. 2. Mostrativo/Indicativo: * Função Expressiva: Focada no "eu" (falante). * Função Apelativa: Focada no "tu" (ouvinte).
Tipos de Deixis segundo Bühler: * Demonstratio ad oculos: Exofórica. * Deixis anafórica: Aponta para o interior do discurso. * Deixis em fantasma: Mostra o ausente ou imaginário.
Nota: Karl Popper sugeriu uma função argumentativa, mas esta é geralmente considerada dentro da referencial.
Roman Jakobson (Lingüística y poética)
Adiciona três elementos ao esquema básico (emissor, receptor, mensagem): contato, código e contexto.
As 6 Funções de Jakobson: 1. Referencial (Contexto): Denotativa ou cognoscitiva. Essencial em todo ato comunicativo para transmitir informação sobre o mundo. 2. Emotiva ou Expressiva (Emissor): Manifesta a atitude do falante, verdadeira ou fingida, através de entonação ou ênfase. 3. Apelativa ou Conativa (Receptor): Visa provocar uma reação ou comportamento no destinatário (uso de imperativo, vocativos, publicidade). 4. Fática ou de Contato (Contato): Foca em estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação via canal (ex: "Alô?", "Tudo bem?", conversas de elevador). Nome atribuído por MALINOWSKI. 5. Metalinguística (Código): Mensagens que explicam ou fazem referência ao próprio código para garantir que ambos o usem corretamente. 6. Poética ou Estética (Mensagem): Adicionada por MALTHESIUS. Foca na seleção e combinação criativa das palavras e entonação, tanto no registro literário quanto coloquial.
Funcionalismo Social (M.A.K. Halliday)
Inspirado em MALINOWSKI, estuda o desenvolvimento da linguagem na criança.
7 Modelos Comunicativos iniciais: Instrumental, regulador, interacional, pessoal, heurístico, imaginativo e representativo/informativo.
Macrofunções do Adulto: 1. Ideativa: Representação e apreensão linguística do mundo (significados funcionais e representativos). 2. Interpersonal: Representação de si mesmo e regulação social. 3. Textual: Produção de enunciados adequados e eficazes.
Teorias do Significado Social e Etnografia
BERNSTEIN: A linguagem é fundamental nos processos sociais; o indivíduo define sua conduta social coletivamente.
FIRTH (1935): Cunhou "linguística sociológica" para descrever contextos culturais e situacionais típicos.
Etnografia da Fala (GUMPERZ e HYMES): Analisa a interação como unidade do evento comunicativo.
Componentes do Modelo SPEAKING de Hymes: 1. Situation (S): Localização espacial/temporal e cena psicossocial. 2. Participants (P): Características socioculturais (idade, sexo, status) e relações de hierarquia ou intimidade. 3. Ends (E): Objetivos (metas) e resultados (produtos) da interação. 4. Act Sequences (A): Organização da interação (turnos) e do tema. 5. Keys (K): Grau de formalidade e tom (sério, frívolo, etc.). 6. Instrumentalities (I): Canais (oral, escrito) e variedades de fala (dialetos, cinesia, proxemia). 7. Normas (N): Regras de interação (quem fala) e de interpretação (implícitos). 8. Genre (G): Tipo de interação (debate, conversa espontânea) e sequências discursivas.
A Situação Comunicativa e o Registro
Definição de Crystal: Configuração extralinguística de um enunciado.
Filologia: Distingue contexto (entorno linguístico) de situação (estímulo e circunstâncias da enunciação).
MALINOWSKI e a Antropologia: O linguagem é simbolismo e transmissão cultural. Defende que nenhum estudo da fala é legítimo fora do "contexto de situação".
Escola Sistêmica (Firth, Halliday, Hasan): Desenvolvem a teoria do Registro como variedade funcional-diafásica.
Os três pilares do Registro: 1. CAMPO: Esfera da atividade e temática (léxico, terminologia profissional). 2. TENOR: * Personal: Identidade e envolvimento (marcas de pessoa, deícticos, modalização). * Interpersonal: Relação proximidade/distância e hierarquia/solidariedade. * Funcional: Intencionalidades ( funções de Jakobson). 3. MODO: Canal de transmissão (oral, escrito, gêneros, sistemas semióticos).
Perspectivas Contemporâneas sobre Contexto
COSERIU e os Entornos: 1. Situação: Espaço-tempo (deícticos). 2. Região: Âmbito sociolinguístico. 3. Contexto: Idiomático, verbal ou extraverbal. 4. Universo do Discurso: Sistema universal de interpretação.
Visão Cognitiva: Contexto como organização de experiências na memória. Composto por: * Frame (Marco) * Schemeta (Esquema) * Script (Plano/Guia)
TEORIA DA RELEVÂNCIA (Sperber e Wilson): Contexto depende do conhecimento mútuo (o que um sabe que o outro sabe).
T. VAN DIJK: O contexto é, acima de tudo, uma representação mental presente na própria articulação do discurso. O texto contém seu contexto.
Conclusões e o MCERL: O Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas baseia-se na ideia de que a comunicação surge em situações concretas. Define os aspectos do contexto como: Âmbitos, Situações, Condições/Restrições externas e o Contexto Mental do interlocutor.