Psiquiatria da Inf
cincia e Adolesc
cia - TDAH
TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)
Definição
- Síndrome psiquiátrica que engloba três domínios sintomáticos:
- Desatenção
- Hiperatividade
- Impulsividade
- Ocorre em um padrão comportamental mais frequente e grave do que o observado tipicamente em indivíduos com nível equivalente de desenvolvimento.
Impacto e Riscos
- Infância:
- Aumento do risco de acidentes domésticos.
- Pior desempenho escolar.
- Repetência, suspensões e expulsões.
- Adolescência:
- Dificuldades nas relações familiares ou com pares.
- Ansiedade e depressão.
- Uso precoce de substâncias psicoativas.
- Gravidez.
- Agressão e problemas de conduta.
- Adultos:
- Maiores índices de criminalidade.
- Acidentes de trânsito.
- Mortalidade.
Epidemiologia
- Prevalência média estável nos últimos 30 anos: 5,3%.
- Aumento do diagnóstico pode ser devido ao melhor reconhecimento clínico.
- Diferença entre sexos: Mais prevalente em meninos ambulatorialmente, mas na população geral a prevalência se iguala.
Etiologia
- Heterogeneidade: Fatores genéticos e ambientais.
- Herdabilidade: 70−80%. Dificuldade em encontrar genes específicos.
- 12 variantes em loci independentes.
- Escore poligênico aumenta a chance em 5 vezes.
- Fatores Ambientais:
- Pré-natal: Tabagismo, estresse materno, obesidade materna, hipertensão, pré-eclâmpsia.
- Peri-natal: Baixo peso ao nascer, prematuridade.
- Pós-natal: Chumbo, dieta, atopias, adversidades familiares e maus-tratos.
Neurobiologia
- Alterações cerebrais no volume de estruturas corticais e subcorticais, na conectividade e na substância branca.
- Neuroimagem funcional: Hipofunção no córtex inferior frontal direito.
- Menor superfície cortical nas regiões frontais, temporais e do cíngulo (mais comum em crianças, tendendo à normalização).
- Córtex medial pré-frontal superior e pré-central com menor espessura mesmo com o desenvolvimento = pior prognóstico.
- Variações longitudinais associadas ao gene DRD4 alelo 7: menor espessura cortical, porém com maior normalização da espessura cortical.
Quadro Clínico (DSM-5)
- Mais de 6 sintomas de desatenção ou hiperatividade/impulsividade em crianças até 17 anos (acima de 17 anos, 5 sintomas).
- Tipos:
- Predominantemente desatento: Mais de 6 sintomas no critério de desatenção e menos de 6 no critério de hiperatividade/impulsividade.
- Hiperativo/impulsivo: O contrário do tipo desatento.
- Misto: Mais de 6 sintomas nos dois critérios.
- Início dos sintomas antes dos 12 anos de idade.
- Persistência dos sintomas por 6 meses e em mais de 2 ambientes diferentes.
- Na adolescência e vida adulta, os sintomas de hiperatividade diminuem (se internalizam), enquanto os de desatenção, falta de organização/disfunção executiva e impulsividade ficam mais acentuados.
Comorbidades
- Chega a 80\%$ em amostras clínicas e 50\%$ na população geral.
- Diagnóstico mais complexo, piora o prognóstico e o manejo.
- TOD (Transtorno Opositivo-Desafiador) e TC (Transtorno de Conduta): 80%.
- Depressão e ansiedade: 10−30%.
- Associados com fatores genéticos comórbidos > sempre avaliar temporariedade.
- Transtorno de aprendizagem: 25%.
- Tiques (Tourette): 50%.
- TEA (Transtorno do Espectro Autista): 28%.
- Adultos:
- TUS (Transtorno por Uso de Substâncias): 40\%$ (na adolescência).
- TDM (Transtorno Depressivo Maior).
- Transtornos disruptivos.
- TB (Transtorno Bipolar).
- TA (Transtorno de Ansiedade) e TP (Transtorno de Personalidade) cluster B e C (50% dos adultos).
- Clínicas: Asma, psoríase, rinite, dermatite atópica, espondilite anquilosante.
Evolução
- Redução dos sintomas da hiperatividade na adolescência.
- Desatenção tende a permanecer.
- Impulsividade modifica sua apresentação clínica.
- Persistência do diagnóstico pleno em 15\%$ dos casos e remissão parcial com persistência de prejuízo em 65\%$ dos casos.
- TDAH na vida adulta: 2,5\% da população.
- Fatores associados à persistência do diagnóstico:
- História familiar.
- Adversidades familiares.
- Intensidade dos sintomas.
- Presença de comorbidades.
- Adultos - Desfechos negativos:
- Instabilidade no casamento e trabalho.
- Divórcio.
- Demissões recorrentes e ocupação de cargos aquém do potencial.
- Maior risco de morte causada por acidentes de trânsito, acidentes domésticos, criminalidade e uso de substâncias.
Tratamento
- Multidimensional: Interação farmacológica + psicossocial.
- Tratar comorbidades clínicas e psiquiátricas.
- Psicoeducação e treinamento para os pais:
- Identificação de situações e comportamentos contraproducentes.
- Treino em metodologias efetivas de comunicação de ordens e estabelecimento de regras.
- Uso de estratégias de reforço positivo para recompensar o comportamento adequado.
- Uso de estratégias de reforço negativo apropriadas e vinculadas a situações e comportamentos contraproducentes.
- Tratamento farmacológico + psicoterapêutico não foi mais eficaz que o tratamento medicamentoso isolado (tratamento combinado apenas em comorbidades).
- Metilfenidato: Primeira escolha (diretrizes europeias e americanas).
- Lisdexanfetamina: Inicia a ser primeira escolha (melhor resultado clínico que Metilfenidato).
- Benefícios do tratamento a longo prazo:
- Diminuição de acidentes automobilísticos.
- Redução na criminalidade.
- Redução da gestação na adolescência.
- Redução dos TUS.
- Redução de acidentes domésticos com crianças.
- Redução na mortalidade em geral.
- Monitoração de eventos adversos:
- Abuso/dependência de estimulantes: não encontrado/uso contínuo diminui risco de dependência.
- Crescimento: Redução pequena (média 2 cm)/monitorar.
- Cardiologia: Pode aumentar PA e FC (5)/sem associação do uso de estimulante com morte súbita.
- Epilepsia: Estimulantes podem ser usados com segurança em quadros controlados.
- Tique: Associação com uso de estimulantes não é direta, pode-se usar com monitoração atenta sendo suficiente.
Posologia
- Dose inicial: Calcular com relação ao peso do indivíduo.
- Aumentar a dose até estabilizar os sintomas ou até atingir a dose máxima autorizada.
- Pausa no final de semana (casos de desatenção escolar).
- Longo período assintomático ou diminuição intensa na sintomatologia: pode-se tentar suspensão do fármaco (período não especificado).
- Fármacos de 2ª escolha:
- Atomoxetina.
- Antidepressivos (imipramina, nortriptilina, bupropiona).
- Agonista alfa 2 adrenérgico (clonidina): efeitos colaterais à estimulantes/sintomas de rebote de fim de tarde dos estimulantes.
- Modafinila (preocupação: raro Steve Johnson).
Atomoxetina (Atentah)
- Inibidor seletivo da recaptação de noradrenalina com agonismo indireto sobre a dopamina.
- Eficaz na redução dos sintomas do TDAH.
- Tamanho de efeito menor em relação aos estimulantes (estimado em, aproximadamente, 0,7$$).
- Efeitos terapêuticos podem ser observados na primeira semana, mas em alguns casos, os benefícios estarão presentes apenas um mês após o início do uso.
- Observou-se redução dos sintomas de ansiedade no TDAH com o uso da atomoxetina, assim como a presença de tiques.
- Em quadros clínicos sugestivos de abuso de estimulantes, a atomoxetina se apresenta como boa opção pelo seu baixo potencial de abuso.
- O uso de atomoxetina se associa a sintomas gastrintestinais transitórios, bem como aumento na FC e na PA.
- Há relatos raros de eventos adversos graves, como hepatotoxicidade e comportamento suicida.
- Aprovado pela ANVISA desde 2023.